"A doença não é contagiosa, é contagiante": como o Alcoólicos Anônimos reinventou suas reuniões na pandemia - Revista Esquinas

“A doença não é contagiosa, é contagiante”: como o Alcoólicos Anônimos reinventou suas reuniões na pandemia

Por Bruna da Rocha Parrado, Gabriel Barbosa Haguiô e Lucas Henrique De Lucia Gaspar : novembro 19, 2021

ESQUINAS acompanhou encontros e conversou com coordenadores do Alcoólicos Anônimos, que explicam adaptações feitas durante o isolamento social

“Mais 24 horas pra gente”, deseja uma mulher à sua tela ao fim dos cinco minutos de seu depoimento enquanto outras 50 pessoas assistem. Com a câmera ligada, todas esperam por sua vez para contarem sobre sua adicção ao álcool – o elemento em comum entre suas histórias de vida e o que as une em uma mesma videoconferência.

Por trás de cada janela, moram famílias diretamente afetadas pelo alcoolismo. À frente das câmeras, entretanto, apenas se vê os diferentes rostos em busca da reabilitação, alguns desgastados pela idade e outros disfarçados pela juventude, mas compartilhando um mesmo objetivo: mais 24 horas sóbrias e distantes de seu maior vício.

Ao final da chamada, todos fazem a mesma oração que rezaram ao seu começo, e que todos os dias rezam para si mesmos: “Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras”.

Assim têm acontecido as reuniões diárias do Alcoólicos Anônimos (A.A.) desde março do ano passado, com o início da pandemia. Devido ao isolamento social, o grupo teve que se adaptar ao ambiente online para organizar seus encontros, realizados em quatro horários diferentes ao longo do dia e com um alcance muito maior de pessoas do que as rodas presenciais.

alcoólicos anônimos

Gráfico disponibilizado pelo Alcoólicos Anônimos mostrando o aumento da procura pelos grupos na internet durante a pandemia.
Alcoólicos Anônimos

Transição do Alcoólicos Anônimos para o virtual

Em 2020, cerca de 214 mil usuários únicos acessaram o site oficial da organização em busca de informações sobre os encontros à distância, que têm acontecido em diferentes plataformas, como o Zoom e o Google Meet. O portal reúne grupos de todo o País que os procuraram para promover suas operações pela internet, totalizando 608 chamadas realizadas por semana para uma média de 11 mil participantes pelo Brasil (somente entre as unidades cadastradas).

A interação entre os membros à distância era uma das preocupações iniciais dos organizadores, mas logo os encontros online incorporaram a dinâmica dos físicos. “Nossa reunião era olho no olho, em círculos, a gente não usava essas coisas”, conta um dos coordenadores de A.A., que preferiu manter o anonimato em respeito aos princípios da irmandade, termo por meio do qual se referem aos integrantes. “Montar uma sala virtual foi um grande desafio, mas pudemos abrir as mentes para muitos perderem o medo e a vergonha”.

Os gestores de A.A. dizem acreditar ter havido um aumento da procura pelo grupo após o início da pandemia. Uma das razões que teriam levado a esse crescimento seria o convívio dos integrantes com outros familiares em casa ao mesmo tempo em que lidam com o vício. “O cara fica trancado dentro de casa, o controle aparece e o problema fica evidente”, pontua o coordenador, destacando as recaídas pelas quais muitos passaram na quarentena.

Mudanças na pandemia

Durante a pandemia, várias pessoas têm lidado com problemas relacionados à saúde mental, o que também poderia ser um dos motivos pelo qual muitos recorrem ao álcool como uma “válvula de escape”. É o que sugere a psicóloga Cristiane Moreira. “Quando a pandemia começou, tinha uma lógica de produção assustadora. Você, a princípio, tinha um tempo para fazer yoga, aprender jardinagem, estudar um idioma, acompanhar todos os eventos online”, diz. “E como isso vai sendo postado, dá uma sensação que todo mundo está lidando bem, sendo produtivo e que se você não alcança isso, tem alguma deficiência com você. Para a saúde mental, isso é muito ruim”.

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É fato que as reuniões online foram desafiadoras, mas também serviram como um incentivo àqueles que normalmente não frequentavam os encontros presenciais. Segundo um dos organizadores, o número de participantes mulheres e jovens aumentou drasticamente na pandemia e a distância permitiu que preconceitos ficassem offline.

Além da maior vulnerabilidade fisiológica da mulher ao álcool, elas ainda tinham que lidar com os olhares de espanto na própria reunião, a preocupação de quem as teria visto entrar no local, o medo de serem assediadas no caminho e a vergonha injusta de sentirem que estão indo contra algo que deveriam ser: educadas, dóceis e perfeitas, ao invés de simplesmente si mesmas. “O alcoolismo feminino é uma realidade silenciada por preconceitos, vergonhas, e a plataforma virtual abriu um leque para que essas pessoas saíssem de dentro dos lares”, comenta o organizador do grupo.

Para os jovens, ficam os questionamentos sobre a validade de suas dificuldades e a constante insegurança, impedindo-os de procurar ajuda quando precisam. “Sobre os jovens, houve um aumento no consumo de álcool durante a pandemia. Muitas vezes os pais estão consumindo junto com os filhos por conta daquela visão de  ‘é melhor consumir aqui comigo do que em outro lugar’, sabe?”, comenta a jornalista Bárbara Gil, que produziu uma monografia sobre dependência química e pôde acompanhar de perto as reuniões presenciais do A.A..

A migração de Alcoólicos Anônimos ao ambiente virtual possibilitou que pessoas de todo o mundo comparecessem aos encontros de seus bairros, ainda que estivessem fora do País. Isso pode ser notado por meio da imagem abaixo, que ilustra o local de onde veio o acesso do site de A.A. e que se encontra disponível para consulta em sua página oficial.

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Mapa de acessos ao site de Alcoólicos Anônimos, disponível para consulta pública.
Alcoólicos Anônimos

Alcoolismo no Brasil

Apesar do sucesso da virtualização dos encontros de A.A., os coordenadores reconhecem a irmandade como “um retrato do Brasil” e que, portanto, reflete também suas desigualdades, de maneira que o grupo procurou oferecer novos meios de acesso para usuários sem contato com a internet.

Entre as alternativas oferecidas, a mais utilizada pelos integrantes foi a de participar dos encontros pelo telefone. “Isso é uma abertura impressionante, que confesso que superou as minhas expectativas”, diz outro organizador, também sob anonimato. “Mas as minhas expectativas são coisas de bêbado!”, brinca, com a serenidade de quem se mantém sóbrio por décadas.

Como “o vício não escolhe idade nem condição econômica”, as reuniões presenciais precisaram continuar acontecendo para os integrantes acometidos não só pelo alcoolismo, mas também pela extrema pobreza. Os organizadores de A.A. ressaltam que as medidas sanitárias foram sempre respeitadas, de forma a tornar o local do encontro um ambiente seguro para disseminar apenas histórias de vida e sentimentos de afeto.

“A doença não é contagiosa, é contagiante”, disse um dos membros em certo momento da reunião online para falar como o alcoolismo afetou seus laços afetivos. Muitos concordaram e também fizeram relatos semelhantes em torno de um ponto: a parte mais difícil de se manter sóbrio não é necessariamente evitar beber, mas sim aprender a viver semanas sem o álcool.

Todos os presentes na reunião pertencem aos 10% da população suscetíveis a desenvolverem o alcoolismo ao entrarem em frequente contato com a bebida. “No começo, você passa mal, vomita e seu corpo não quer aceitar, mas se você insiste seu corpo cria uma tolerância, e aí acabou”, detalha um dos coordenadores entrevistados, que destaca a dependência emocional que se cria em volta do álcool em uma a cada dez pessoas que o consomem.

“A identificação de uma pessoa como alcoólatra não é pela quantidade de bebida que ela ingere. O que acusa que a pessoa é alcoólatra é quando ela bate o carro alcoolizada, quando ela entra em briga alcoolizada, quando ela fala absurdos pelo fato de estar alcoolizada, quando ela passa a ficar à margem da sociedade”.

O tratamento do Alcoólicos Anônimos

O tratamento de Alcoólicos Anônimos tem como objetivo a abstinência total ao álcool por meio de um intenso trabalho interior e psicológico, acompanhado minuciosamente pelos organizadores. O grupo promove leituras coletivas para os recém-chegados com a entrega de livros sobre o alcoolismo pelo correio, uma maneira de reforçar sua mensagem e integrá-los aos valores da irmandade no caminho dos chamados “doze passos”.

Os doze passos pregados pelo A.A. consistem em etapas que procuram conscientizar os integrantes a respeito de sua condição ante ao vício e uni-los às pessoas a quem eles eventualmente prejudicaram ou se distanciaram. Trata-se de um processo realizado ao longo dos encontros e a partir das experiências compartilhadas entre os membros, no qual cada nível é fundamental para a recuperação da sobriedade e a manutenção de uma vida saudável ao lado de sua família.

Vale ressaltar que o tratamento para o alcoolismo deve ser seguido para sempre, conforme relatam os organizadores. Como a doença não tem cura, é fundamental que os integrantes frequentem as reuniões continuamente para evitar recaírem ao vício, o que é comum quando se afastam do grupo e se tornou recorrente em meio à pandemia entre aqueles que deixaram de comparecer aos encontros.

Para trazer leveza ao pacto da irmandade, os integrantes de Alcoólicos Anônimos suavizam sua promessa por meio da concentração da sua pessoa no presente: “só por hoje”; “só por mais 24 horas”. E, assim, chegam a dias, semanas, meses e anos de sobriedade.

Editado por Julia Queiroz

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