“Só Por Hoje”: usuários relatam recuperação da dependência química na pandemia - Revista Esquinas

“Só Por Hoje”: usuários relatam recuperação da dependência química na pandemia

Por Isabella Gemignani : julho 30, 2021

Pesquisas apontam que, em 2020, houve aumento no uso e abuso de substâncias. Ao mesmo tempo, membros de grupos de apoio subsistem em luta pela sobriedade.

“Concedei-nos, Senhor,” clamam as paredes, “a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras.”

Esse mantra, conhecido como a “Oração da Serenidade”, habita, ao redor do Brasil, as inúmeras salas de reunião da comunidade dos Alcoólicos Anônimos (A.A.). Salas cujas paredes, juntamente com a dos Narcóticos Anônimos (N.A.) no contexto pandêmico, viraram telas; mas cujos membros, em recuperação da dependência química, continuam seguindo em suas buscas pela sobriedade.

A dependência química na pandemia

“A pandemia da covid-19 atingiu grandes proporções, criando um cenário totalmente novo na vida cotidiana, com grandes repercussões nos padrões de relacionamento interpessoal”, diz Natalia Haddad, médica psiquiatra do Núcleo de Álcool e Drogas do Hospital Sírio Libanês. Abrangendo não só o medo do vírus invisível, mas também o distanciamento social, a quarentena configurou uma conjuntura estressante para a população, especialmente a aqueles que já apresentavam vulnerabilidades em relação à condição psíquica. De acordo com a profissional, mecanismos para amenizar o sofrimento, portanto, passaram a ser buscados ou criados – e, “historicamente, o uso de álcool e drogas vira uma opção”.

“Pesquisas apontam que houve um aumento substancial no uso e abuso de substâncias durante a pandemia da covid-19”, continua. Dados levantados pelo Global Drug Survey no Brasil durante a pandemia ilustram justamente essa alta: o uso de maconha cresceu em 17%; o do álcool e da cocaína, em 13% e 7%, respectivamente. O aumento no uso em si não significa, necessariamente, que o indivíduo é dependente químico. Porém, a tolerância, o desejo intenso de consumo, a dificuldade em controlar o uso, uso persistente apesar de consequências danosas e a abstinência podem ser alguns sinais de dependência.

O maior consumo foi associado, ainda, à tendência de desconsiderar o isolamento social. “A quarentena não influenciou para mim”, relata Leandro*, de 39 anos, que, como muitos outros brasileiros, continuou trabalhando e vivendo normalmente, a despeito do coronavírus.

Recuperação da dependência química: entre recaídas e promessas

Leandro passou os momentos iniciais da pandemia – de maio a junho de 2020 – em uma instituição para a sua recuperação. Após sua saída, voltou a trabalhar e conseguiu se manter longe do consumo, apesar da quarentena: “Nunca me afetou em nada”, revela, “porque muitas coisas continuaram funcionando. Eu ia para o trabalho todos os dias. O ano de 2020 acabou passando por mim tranquilo.”

Contudo, em 2021, após onze meses limpo e ainda durante a pandemia, recaiu. Ao começar a trabalhar em um aplicativo de transporte além de seu emprego em vigilância, pegou corridas e passageiros dentro de comunidades, algo que o “baqueou”. “Comecei a entrar em locais que eu já estive usando drogas enquanto passava de carro”, conta. “Aquilo começou a me fazer achar que eu poderia tomar uma dose, mesmo sabendo que eu não deveria.”

Veja mais em ESQUINAS

Em São Paulo, projeto “Fique Vivo!” cuida da saúde mental da população de rua

Violência doméstica: Vítima relembra três décadas de relacionamento abusivo e fuga cinematográfica

“Foram os piores dias da minha vida”: Casal de médicos relata as aflições do período em que ficaram intubados com covid-19

Leandro foi introduzido ao uso de álcool com doze anos, e o de cocaína, com catorze. “Eu tive a primeira experiência bebendo no copo de cerveja da minha mãe”, lembra. Em um churrasco com seu primo lhe ofereceram cocaína pela primeira vez – e, a partir de então, começou a usar as substâncias esporadicamente. “Meu vício mesmo era cocaína e álcool sempre junto, sempre junto”, relata.

Com seis anos de uso, ele perdeu o controle pela primeira vez: “Estava gastando tudo, só chegava no outro dia em casa. Não tive como esconder isso da minha mãe”. Esse momento, no qual sua mãe “soube de tudo”, marcou o início da busca de Leandro por ajuda. Saiu da capital e se mudou para a casa do seu pai no mesmo ano, mas a mudança foi apenas geográfica. Seu pai, diante de um vício que se intensificava cada vez mais, falou que iria levá-lo em um lugar. Não disse onde.

Levou-o para uma reunião dos Narcóticos Anônimos. “Era uma sala de N.A., mas eu nem sabia o que era”, Leandro relembra. “Eu fiquei foi vibrando, porque tinham umas meninas bonitas e eu fiquei pensando, ‘caraca, elas usam droga, vou chamar elas para saírem, usarem comigo.’ Eu não entendia o que estava acontecendo ali”. Anos depois, sua mãe também o levaria ao N.A., porém, assim como o pai, não teria frutos: “Ainda não tinha em mim o desejo de parar e escutar. Inclusive, eu usei droga dentro de um banheiro de N.A. Eu não queria a recuperação.”

“Parar de usar eu paro. Eu preciso tratar o que está por trás”

“O processo de reabilitação se dá em várias etapas”, retoma a Dra. Natalia Haddad. Diversos mecanismos de apoio auxiliam na fase de interrupção do uso de substâncias, especialmente após o período de desintoxicação. Um tratamento focado na dependência química, que é uma condição crônica de saúde, também é abordado. Mas a primeira etapa para a reabilitação ainda é, segundo a psiquiatra, a “aceitação do indivíduo de que ele tem uma doença e necessita de ajuda.”

Leandro recorda a última vez de uso, em abril: “Fui trabalhar em uma segunda-feira e fiz duas, três corridas, e não consegui mais. Fui para o uso. Logo no dia seguinte, o meu carro deu problema – e isso me ajudou, sabe por quê? Achei que fosse fácil de resolver, mas o carro ficou um mês parado. Acabei não rodando no aplicativo de transporte. Vinha para o trabalho e comecei a ir às reuniões do N.A.”. Tomou a parada do veículo como um sinal.

O Narcóticos Anônimos, para ele, é importante porque não o ensina apenas a “parar” de usar substâncias. “Parar de usar droga eu paro,” diz, “mas eu preciso tratar o que está por trás disso”. Acima de tudo, o compartilhamento de experiências e o entendimento dos sentimentos por trás do uso são importantes, de acordo com ele. “Eu tenho um amigo do N.A. que antes ele falava comigo: cara, você precisa ir na reunião, mas eu não aceitava que eu precisava ir. Hoje, nós estamos indo juntos”, conta.

39 anos, 499 e 35 dias lutando contra a dependência química

“O N.A. me ajudou demais”, complementa Mariana*, também de 39 anos. Ela começou a usar cocaína aos 17 anos de maneira recreativa; contudo, com o passar do tempo, relata que foi se tornando dependente da substância sem perceber, “até que eu cheguei no fundo do poço, onde ela [que] me usava.”

Em 2019, assumiu a sua dependência química e pediu ajuda. “Quando exatamente eu não sei. Mas busquei ajuda para salvar a minha vida”, conta, ao mesmo tempo que relembra a data específica de sua última recaída: dia 1° de janeiro de 2020.

O isolamento social, para Mariana, está ajudando muito em sua recuperação. “Estou lidando bem”, atesta. “ Ao contrário do que tenho visto por aí, pessoas recaindo por conta dessa fase, e eu estou amando poder ficar em casa, pois sou funcionária pública e tenho esse privilégio. Prefiro estar aqui, onde me sinto segura”. Entretanto, revela que não frequenta mais o N.A. na pandemia por não ter se adaptado às reuniões online.

A adequação do Narcóticos e Alcoólicos Anônimos ao virtual se consolidou especialmente nesses encontros, realizados pela plataforma Zoom várias vezes ao dia, somados a grupos em redes sociais. No Facebook, algumas dessas comunidades somam mais de dez mil membros, que compartilham entre si dicas e palavras de apoio. Esse suporte, segundo a Dra. Haddad, é essencial – ainda que este esteja estabelecido à distância e além do meio físico por conta da pandemia.

A vida em sobriedade está sendo um desafio, admite Mariana – mas é compensador. “Quando lembro da minha vida antes, me fortaleço para seguir nessa vida de hoje”, declara. No dia da entrevista, comemora estar limpa há 499 dias. Leandro, há um mês e quatro dias.

O lema, cumprimento e incentivo entre membros da comunidade dos Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos é SPJ: “Só Por Hoje”. E, quando os dias se misturam, sejam tingidos pela sombra do vício ou pelas semelhanças das semanas de isolamento social vividas a fio, cultiva-se a serenidade para existir, minuto por minuto, no hoje, por hoje. “Passou um dia”, conta Leandro, “passou dois, passou três, passou quatro e eu fui conseguindo.”

*A pedido do entrevistado, seu nome completo foi ocultado para preservar sua identidade.

Encontrou um erro? Avise-nos.