Como os novos hábitos de leitura modificam o mercado editorial

Como os novos hábitos de leitura modificam o mercado editorial

Por Catarina Truiz, Júlia Rezende, Maysa Sevaroli, Sofia Cavalaro : setembro 23, 2026

Homem testando o aparelho “kindle” durante Bienal do Livro 2026. Foto por Maysa Sevaroli

Ler é muito mais do que virar páginas: mudanças na rotina e na tecnologia estão redefinindo a experiência de leitura.

O que significa “ler um livro” em 2026? Se essa pergunta fosse feita anos atrás, a resposta seria certeira: pegar um livro físico, sentar em uma cadeira, folhear e passar horas entre as páginas.

Entretanto, o que antes só era tido como válido pelo toque do papel e pelo cheiro das folhas, hoje ganhou novos sentidos. Entre narrativas em áudio que podem ser ouvidas a qualquer momento no decorrer da rotina, e e-books práticos na palma da mão, as novas tecnologias não substituíram a “velha literatura”, mas criaram diferentes portas de entrada para esse mundo.

Essas transformações não só mudaram a rotina do leitor, mas fizeram com que todo o mercado editorial tivesse que se reinventar.

Mas como essa convivência entre as folhas, as telas e os fones se mostra no dia a dia das pessoas? Em um levantamento feito com o público que compareceu à 28ª Bienal do Livro, foi possível analisar a relação entre a preferência pessoal do leitor e o consumo real.

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Fonte: Pesquisa própria realizada na 28ª Bienal Internacional do Livro de SP (96 entrevistados).

Os números revelam uma diferença marcante entre o gosto e a necessidade da rotina.

Embora o livro físico seja o preferido de 83,2% do público, a busca pela praticidade durante as tarefas do dia fala mais alto: a taxa de leitores que consomem e-books (33%) dobra em relação àqueles que colocam o digital como favorito. Isso confirma que, se a tradição das páginas segura a preferência pelo formato, a dinâmica funcional do tecnológico prevalece na prática.

Quando parar para ler parece impossível

Dessa forma, surgem os audiolivros, que transformam momentos que antes não eram possíveis dedicar à leitura em oportunidades para consumir narrativas.

Essa mudança está presente nos números também: segundo dados da Bookwire, a partir da chegada da plataforma Audible, criadora e distribuidora de audiobooks e podcasts subsidiada pela multinacional Amazon, o crescimento acumulado de audiolivros no Brasil no primeiro semestre de 2024 foi de 98,5% em relação ao mesmo período em 2023.

A quantidade de pessoas que encaixam a leitura no cotidiano está cada vez aumentando mais, de forma chamativa para o mercado.

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Estande Audible Bienal do Livro 2026. Foto por Maysa Sevaroli

Diante deste cenário, as editoras começaram a lançar a mesma obra nos três formatos, audiobook, e-book e livro físico, para oferecer ao leitor uma maior variedade de alternativas para ele poder ler, ao decorrer das tarefas diárias.

Os e-books e os e-readers, dispositivos portáteis para ler livros online como o Kindle, não ficam de fora, assim como mostram os resultados da Pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro. Em 2025, o conteúdo digital já apresentava quase 9% do faturamento do mercado editorial nacional. Isso porque o e-book apresenta uma gama de vantagens ao leitor: são mais baratos, portáteis e permitem carregar centenas de livros em um só dispositivo.

Como surgiram os ebooks e audiobooks?

A criação do audiobook começou com a invenção do fonógrafo por Thomas Edison, em 1877. No ano seguinte, o inventor já imaginava a possibilidade de gravar um “phonographic book”. A ideia, porém, não foi adiante naquele momento, já que os cilindros armazenavam apenas alguns minutos de áudio. A concretização do novo formato de leitura só foi possível décadas depois, a partir dos anos 1930.

Um dos principais marcos na história dos audiobooks aconteceu quando a tecnologia passou a ser utilizada para ampliar o acesso à leitura. Pessoas cegas ou com deficiências visuais se tornaram o principal público das primeiras iniciativas. Em 1931, a American Foundation for the Blind criou um programa voltado à produção desses materiais. Três anos depois, em 1934, surgiu o Talking Book Machine, equipamento que reproduzia audiolivros e discos.

A iniciativa também ganhou importância diante do número de pessoas que passaram a conviver com deficiências visuais após a Primeira Guerra Mundial, incluindo soldados que retornaram de combates com perda parcial ou total da visão. Dessa forma, o audiobook passou a assumir uma função que vai além do entretenimento: a de tornar a leitura mais acessível.

Ao longo das décadas, o formato passou por diversas transformações, saindo dos discos e chegando aos CDs. Com a digitalização, as gravações passaram a ser armazenadas em arquivos e reproduzidas em computadores, celulares, MP3 players e outros dispositivos. A partir dos anos 2000, o consumo de audiobooks se popularizou e deu origem a novos modelos de distribuição, como assinaturas e serviços de streaming.

A história do e-book, por sua vez, é mais recente. Um dos principais marcos aconteceu em 1971, com a criação do Project Gutenberg por Michael S. Hart. A iniciativa tinha como objetivo transformar obras literárias em arquivos digitais para disponibilizá-las gratuitamente.

Em 4 de julho de 1971, Hart digitou a Declaração de Independência dos Estados Unidos em um computador, criando o primeiro texto do Project Gutenberg. O documento passou a existir também em formato digital e poderia ser armazenado e compartilhado eletronicamente.

O projeto continuou e passou a reunir gradualmente uma biblioteca eletrônica de obras em domínio público. A ideia de Hart de que os livros poderiam existir como informação digital, e não apenas como objetos físicos, acompanhou o avanço da tecnologia. Com o tempo, os e-books passaram a incorporar imagens, hiperlinks e diversos outros recursos digitais.

Todas essas transformações ajudaram a levar os livros para além do papel e fizeram com que a leitura digital chegasse a diferentes aparelhos. Com a popularização de dispositivos específicos, como os e-readers, os e-books passaram a fazer parte do cotidiano de cada vez mais leitores.

O medo da substituição das editoras pelo mercado digital perdeu força à medida que o setor se adaptou aos novos formatos. Companhia das Letras e Intrínseca são exemplos desse movimento: suas obras passaram a ser disponibilizadas em diferentes formatos, como e-books e livros impressos, acompanhando as mudanças nos hábitos e no consumo dos leitores.

Essa transformação também exige mudanças em diferentes etapas do processo de produção, incluindo a contratação de profissionais com novas habilidades. As estratégias de venda também migraram para o ambiente digital: as redes sociais passaram a ser utilizadas como ferramentas de divulgação e marketing, fazendo com que editoras e leitores ocupassem cada vez mais esse espaço.

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Entre páginas, telas e vozes

Se uma pessoa comprar um livro físico a cada mês do ano, levando em conta que ele custa em média 51 reais, ela gastaria aproximadamente 620 reais por ano. Além disso, os livros exigem armazenamento e não são facilmente portáteis. Assim, os custos indiretos aparecem, como a compra de estantes, caixas e prateleiras. Por fim, apesar de tradicional, as diversas barreiras que acompanham a compra de um livro físico o elimina como primeira escolha do leitor, que opta por opções mais práticas e econômicas.

Porém, a experiência tátil e nostálgica ainda faz com que muitas pessoas se voltem a esse modelo de leitura, como diz o influenciador literário e escritor Tiago Valente:

“Quando eu tenho que sair de casa, eu não quero carregar peso. Mas quando eu estou na paz da minha casa, eu quero ter a experiência completa. E eu acho que, até hoje, os leitores só possuem essa vivência por inteiro com um livro físico.”

Não é só o livro físico que tem seus aspectos negativos. O e-book, apesar de ser prático, mais acessível e de maior distribuição, também exige um gasto significativo do leitor. O e-reader, ou Kindle, por si só, não é barato, assim como a compra de livros online. Quanto mais pesado o arquivo do e-book, mais caro o leitor paga.

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Menina escuta audiobook “Carl, o Explorador de Masmorras” na Bienal do Livro 2026. Foto por Maysa Sevaroli

Além disso, há o problema lembrado raramente: a facilidade de piratear os livros online. Para o leitor, ele não gasta nada, mas para o autor e as várias pessoas por trás da realização de uma obra, existem a perda do reconhecimento e da renda gerada pela venda do produto.

Tiago fala em suas redes sociais sobre livros e histórias da comunidade LGBTQIA+. Como um ávido usuário do Kindle, ele conta como a questão da privacidade do e-book é muito importante. Para ele, esse formato foi relevante para que jovens pudessem conhecer histórias da comunidade LGBT sem o medo de opiniões preconceituosas vindas de pessoas próximas, como pais e familiares.

Sobre os audiolivros, eles fazem o leitor mais passivo no exercício da leitura. Geralmente, os audiobooks são ouvidos durante momentos em que a atenção de quem os consome fica dividida, impedindo o exercício cognitivo da concentração exigida durante o momento da leitura.

Para o entrevistado, acompanhar a narração da história o impede de se distrair durante outras atividades, e a acessibilidade do modelo é mais um avanço na questão da democratização da leitura.

“Eu acho o audiobook muito legal por poder levar mais histórias para pessoas cegas ou pessoas que não foram alfabetizadas na leitura do português ou do idioma da leitura, mas conseguem entender a escuta. Além disso, esse modelo facilita a inclusão da leitura em outros momentos, possibilitando maior presença da literatura na vida das pessoas, e isso sempre é positivo”, diz Tiago

Audiobook é considerado leitura?

Assim que os audiobooks começaram a se popularizar no Brasil, iniciou-se um debate sobre qual é a categoria deles, se são considerados como leitura, ou não.

A pergunta pode parecer simples, mas ela divide opiniões. Muitos justificam que a leitura é apenas a absorção de conteúdo por meio de um texto escrito, usando o conceito literal da palavra. Mas, a pergunta se torna mais complexa quando o olhar analítico se volta para a experiência de pessoas com deficiência visual ou não alfabetizadas.

“Nós lemos com o cérebro, as coisas fazem sentido com a nossa mente e não com os nossos olhos, senão pessoas cegas não conseguiriam ler livros”, diz Rebeca Alves, jovem escritora de comédias românticas, sobre aprendizados obtidos nos seus anos de faculdade. Ela menciona o braille como exemplo dessa perspectiva, já que é uma forma de leitura que não utiliza a visão, mas que não torna ninguém menos leitor por usá-la.

Rebeca também compartilha que os audiolivros já são parte da sua rotina enquanto cuida da casa, e que apesar de ainda não ter se aventurado nos áudios de ficção, consome muita literatura feminista nesse formato.

Junto a isso, Tiago Valente menciona outro benefício dos livros em áudio, além da possibilidade de realizar outras atividades simultaneamente e de tornar a literatura mais presente no cotidiano, existe o: “shadow reading”. A prática consiste em ouvir, ler e repetir as palavras para auxiliar no treino das pronúncias e no aprendizado de novas línguas.

Para o entrevistado, nem todos os benefícios da leitura em um livro físico estão incluídos em um audiobook, como a concentração e o trabalho ativo de imaginação, mas em um país com uma porcentagem leitora tão pequena como o Brasil, ele não vê motivo para criticar novos formatos e desestimular possíveis novos adeptos.

Com o objetivo de entender melhor a visão do público sobre o tema, algumas pessoas durante a Bienal do Livro 2026 foram entrevistadas. Confira o resultado no vídeo abaixo.

(Visitantes da Bienal do Livro 2026 opinam sobre os “audiobooks” serem considerados uma forma de leitura. Crédito: Maysa Sevaroli e Júlia Rezende)

O papel ainda resiste

Apesar do crescimento desses novos formatos, os seus adeptos ainda não são a maioria. Durante os dez dias de Bienal do Livro, 760 mil pessoas compareceram ao Distrito Anhembi em busca de novos livros para as suas estantes e muitos saíram de lá com mochilas cheias.

Segundo as pesquisas autorais, 85,1% das pessoas escolheriam o formato físico se fossem obrigadas a manter apenas uma forma de leitura. Os motivos para isso são diversos, da experiência sensorial ao valor sentimental.

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Visitantes da Bienal do Livros 2026. Foto por Maysa Sevaroli

Para o Booktoker, ainda nenhuma experiência conseguiu atingir a imersividade do papel, ele diz que a diagramação escolhida, textura da capa e até as ilustrações nos contam uma história, algo que outros formatos ainda não foram capazes de alcançar. A sensorialidade para ele é o mais especial, e compartilha uma memória de infância com o cheiro de um livro do Cocoricó: “O cheiro daquele livro é o cheiro da minha infância, se eu me concentrar muito eu consigo lembrar dele.”

Editado por Mariana Lima

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