O arquiteto dos sapatos - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

O arquiteto dos sapatos

Por Carolina Ferraz, Maria Carolina de Moura e Stephanie Cid : janeiro 21, 2019

O estilista Fernando Pires brinca de construir calçados há 35 anos

Na Alameda Franca, a quatro quarteirões da avenida mais movimentada de São Paulo, o estilista de sapatos Fernando Pires senta-se descontraído no sofá da sala de estar de seu apartamento no quinto andar do prédio onde mora. Ele mostra seu trabalho com modéstia. No canto do cômodo, a estante abarrotada de suas criações demonstra sua verdadeira adoração pela arte de fazer sapatos.

Formado em Arquitetura e apaixonado pelo mundo da moda, aos 64 anos, Pires une dois universos – à primeira vista distintos – para fazer seu trabalho. “Acho que meus sapatos são arquitetônicos. São projetados como um prédio”, comenta. Sua trajetória começou cedo, aos 14 anos, quando um artesão o ajudou a fazer um tamanco de presente para a mãe. Desde então, calçou diversas artistas, de Hebe Camargo a Madonna.

Feitas à mão, as peças são construídas nos mínimos detalhes. Tudo isso para imprimir sua marca. O estilo ousado dá poder de sedução às suas clientes. Ele brinca que a mensagem que procura passar é “Sou bonita e gostosa”. Apesar da trajetória agitada no mundo da fama e do estrelato, uma das maiores preocupações do estilista é a diminuição das suas produções por causa da crise econômica que afeta o País. No entanto, o artista persiste. “Eu não esmoreci ainda, com toda dificuldade, continuo amando brincar de fazer sapato”.

Fernando Pires com Hebe e Regina Duarte na abertura da FPstore em 1998
Reprodução / Facebook

ESQUINAS Como surgiu o estilo mais ousado de seus sapatos que levou você para onde está hoje?

Eu tive uma marca anterior, que eu tinha uma sócia, mas tinha uma coisa assim de ser mais com a cara dela. Depois que fiquei sozinho, eu extrapolei, comecei a fazer saltos inusitados, plataformas, bicos diferentes. Isso foi em 1990. Quem me dava inspiração boa nessa época eram dois estilistas estrangeiros: o francês Thierry Mugler e a britânica Vivienne Westwood. Fui andando e criei meu próprio DNA, que hoje é bem reconhecido. As mulheres conseguem identificar no meio de vários sapatos qual é o meu.

ESQUINAS Como foi sair dessa marca que você tinha antes com uma sócia e criar a sua própria?

Na verdade, foi indolor. Eu até teria continuado com a mesma marca anterior, a Ponto de Apoio, que tem a ver com arquitetura. A única opção foi botar meu nome, porque testei vários outros que já existiam. Mas eu tinha vergonha de ouvir as pessoas falando meu nome. É timidez. Depois acostumei. Porém, eu tinha uma coleção para lançar. Para não perder o timing, eu falei “Vai esse mesmo”.

ESQUINAS Os sapatos são feitos artesanalmente por você. O que isso traz de diferencial para seu produto?

Eu sempre costumei dizer que a diferença estava no “feito à mão”, que ele vem com muito amor. O meu flerta com a cliente, ela se sente seduzida e não resiste. A ideia é essa mesmo, né? Não é mais um sapato que ela está vendo como tem um monte de sapatarias por aí, é “o sapato”.

ESQUINAS Essa clientela toda se concentra onde?

É uma coisa que eu gostaria de saber. Desde que a crise começou e se instalou no País, meus clientes sumiram. Não é mais aquela constância que era antigamente. Nem loja eu tenho mais. Só existe a fabriquinha, bem menor, trabalhando quase que com exclusividade por encomenda. Eu faço um par e jogo no Instagram. Aí recebo alguns pedidos e replico para quem pede.

ESQUINAS Quando as coisas melhorarem, você tem a intenção de reabrir a loja que tinha antes?

Claro que tenho. Ela faz muita falta por causa da vitrine. Era muito bom você, dentro da loja, vendo gente entrando ou parando na vitrine, comentando. Isso era bom.

ESQUINAS E levar para fora? Você tem interesse?

Eu já tive várias oportunidades, mas foram em momentos difíceis do mundo. Quando eu fiz duas feiras em Paris e depois em Milão, as pessoas de toda parte do mundo ficaram enlouquecidas pelos meus sapatos. Só que era 2008, quando teve a crise americana do Lehman Brothers e o mundo inteiro ficou sem saber o que ia acontecer. Tive um retorno bacana: as de Paris me deram sete publicações em revistas, desde Vogue inglesa e italiana, Marie Claire francesa, publicações na Alemanha, Madame Figaro na Espanha, Estados Unidos. As pessoas me descobriram, só que não dei sequência. No exterior, tive alguns pontinhos de venda nos Estados Unidos, na Espanha, em Portugal. Agora está pintando uma proposta para fora. Só temo que tenha que ir embora. Não sei, vamos ver.

ESQUINAS Você diria que sua mãe foi sua primeira musa?

Acho que não, porque ela não usava salto alto. Tenho lembranças de ela usando uns sapatos scarpin, que são agulhas altíssimas. Ficou marcado. Não, não foi minha musa. É minha mãe e está ótimo. Acho que minha primeira musa de verdade foi a Cláudia [Raia], que virou minha madrinha, e a Hebe [Camargo]. Nos anos 1960, tive uma verdadeira adoração pela Vanderléia. Hoje uma grande inspiração é a Madonna. Ela é uma coisa maluca. Você olha para ela e tem vontade de fazer alguma coisa.

ESQUINAS Como foi ter um sapato seu nos pés da fazer um sapato para a “Rainha do Pop”?

Eu presenteei ela com quatro pares e, no dia seguinte, o irmão dela passou na loja e viu uma sandália. Ele falou “Nossa, ela vai ficar doida com essa”. E a Hebe tinha profetizado isso dois meses antes, quando eu fui mostrar um desfile para ela. Ela falou “Se a Madonna ver essa sandália…”. É arrepiante, né? Ela virou uma coisa de perseguição, fui ver todos os shows dela fora do país, em tudo quanto é lugar. Europa, Estados Unidos, lá estava eu. No terceiro show eu já estava lá, levando umas coisas para entregarem a ela.

ESQUINAS Mais recentemente você trabalhou com a Anitta no clipe de Essa mina é louca também, certo?

Foi uma experiência incrível. Daniel Ueda fez todo o styling e eu, na verdade, entrei só como coadjuvante, como quem confeccionou as botas que o stylist pediu. Mas foi maravilhoso ver o resultado. A Anitta era de uma simplicidade bem tranquila, bem bacana.

ESQUINAS Você se inspirou em Nova York para alguns de seus sapatos. É comum que sua inspiração venha do que você vê nas ruas?

Lógico. Isso de Nova York foi calçando a Marília Pêra, que foi no programa da Hebe. Isso em 1990. Eu tinha feito um sapato na coleção que era de camurça preta e tinha o skyline de Nova York em amarelo, terminando com a Estátua da Liberdade. A Hebe ficou louca. Foi a primeira vez que alguém falou meu nome na televisão. Fiz um especialmente para a Hebe, que apresentou o programa com ele. Ela tirou o que estava no pé e colocou o meu. Ela virou minha garota propaganda, porque ela falava de Fernando Pires toda a segunda-feira naquele SBT. 

ESQUINAS O fato de você ter cursado arquitetura foi um recurso importante profissionalmente?

Eu acho que meus sapatos são arquitetônicos. Eles são projetados como um prédio. Principalmente os de salto. Então, eu acho que o curso me deu essa visão 3D da coisa, até na hora desenhar.

ESQUINAS Para você, qual é o papel do sapato no look, o que ele representa?

Eu acho que é o principal no look. Ele pode salvar ou destruir um look. Feio ou desconfortável, sua cara muda quando você está com um sapato apertado. Ninguém aguenta.

ESQUINAS São muitos anos fazendo sapatos, calçando famosas e celebridades e aprendendo bastante.

Sim, eu sempre estou aprendendo com todos eles. Comecei a vender em um shopping em Santos, na loja de um amigo, e a coisa foi indo. Ia ser uma brincadeira e, de repente, quando vi, eu já tinha virado sapateiro. E com prazer! São 28 anos, mais sete da Ponto de Apoio. Trinta e cinco anos no total e eu não esmoreci ainda, com toda dificuldade, continuo amando brincar de fazer sapato. Porque é uma brincadeira, né?