REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Ana Clara Giovani, Aria Park, Fidel Forato, Julia Zayas, Luísa Cortés, Renato Brigati, Tainá Freitas, Camila Almeida e Victoria Schechter Edição #58

Mercado da fé

Dízimo, consumo e prosperidade nas igrejas neopentecostais

“Minha mãe tinha muitas dores. Então, um dia eu me lembrei de um pastor da igreja Deus É Amor que orava pelo rádio e prometia curar as pessoas. Pedi para ela deitar e coloquei o aparelho em cima de seu corpo. Depois de um dia, ela estava curada.” Laurita Palinha, de 63 anos, empregada doméstica, frequenta desde então os cultos dessa igreja pentecostal todos os sábados e domingos e segue as regras de vestuário: “Não podemos usar calça comprida, tinturas de cabelo, maquiagem ou esmaltes. Se quisesse viver de um jeito diferente das pessoas que frequentam a igreja, eu teria que sair de lá. Eles dizem que se Deus nos criasse com um cabelo preto, ele nos daria. Seguir a Ele não é brincadeira, então algumas pessoas acabam saindo da igreja.”

Mãe de sete filhos, Laurita se aproximou da religião em busca de apoio em momentos difíceis, motivo comum entre os fiéis que entram em grupos de oração a procura de identificação e acolhimento.

Kenji Yano Ojima, de 29 anos, evangélico da Igreja Coreana Presbiteriana Sin Am, acredita que a demasiada secularização de valores está afastando as pessoas da espiritualidade, por prezarem o dinheiro, fama e sucesso. “A igreja precisa dar seu único valor que é Jesus, o evangelho” afirma. Para Victor Hwang de 17 anos, estudante e frequentador do templo Sin Am, os cristãos  estão crescendo em números, mas os “de verdade” estão diminuindo. “Para mim, o cristão verdadeiro é aquele que quer conhecer mais a Deus e que se esforça para  buscá-lo cada vez mais.” Já para Kenji Yano, o crescimento numérico do cristianismo representa uma inovação do modelo tradicional de igreja e sua expansão pelo mundo.

As congregações evangélicas vêm sendo criticadas, não só pela mercantilização da fé, mas também pelos posicionamentos ultraconservadores adotados por políticos evangélicos. Em 2015, o setor elegeu 78 parlamentares, entre eles senadores, deputados, e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Esse número surpreende em comparação com a bancada sindical e a bancada feminina. O posicionamento contrário a projetos de lei envolvendo casamentos homossexuais e aborto, por exemplo, tornaram-se polêmicas.

Mas “evangélico” e “ultraconservador” não são termos intercambiáveis: Sin Am acredita em um modelo de igreja progressista, ao qual os novos fiéis possam trazer uma modernização. “O cristianismo é a religião que mais alcança e tira as pessoas da rua, das drogas.”, comenta. O fiel não vê problema algum em haver cristãos no poder em um Estado laico, já que, de acordo com ele, a política democrática permite o direito de serem representados no Congresso Nacional e nas demais instituições do poder.

Em um culto realizado no Templo de Salomão, no bairro do Brás, em São Paulo, frequentadores da Igreja Universal do Reino de Deus disseram se sentir confiantes de que os representantes do poder legislativo garantirão a permanência e o crescimento de sua fé. “Se fosse por esses outros políticos que não conhecem a palavra de Deus, a Universal já estaria com as portas fechadas” afirma a fiel Ana Patrícia Rodrigues, que diz ter conhecido primeiro a Igreja Assembléia de Deus e, depois, migrado por conta própria para a vertente fundada por Edir Macedo.

A arquitetura imponente do Templo de Salomão impressiona Foto: Ana Clara Giovani

Mercado de luxo

Segundo dados do Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos últimos dez anos, o número de brasileiros que se dizem pertencentes a matrizes protestantes aumentou em 61%. O país conta hoje com 22% de sua população composta por esses, o que equivale a mais de 25 milhões de pessoas.

A magnitude da arrecadação das instituições religiosas — por meio de dízimo e venda de produtos — evidencia o luxo de seus locais de culto. Construído no ano de 2014, o grandioso Templo de Salomão, localizado na região do Brás, obra da Universal, realiza celebrações diariamente com cerca de cem mil fieis, que são acomodados em cadeiras importadas da Espanha. As dimensões do templo passam dos cem mil metros quadrados, smaior que a soma da área de cinco campos de futebol. O custo da construção foi de aproximadamente 680 milhões de reais, segundo dados da reportagem O bilionário mercado religioso, publicado na Revista C & S em 2015.

Para facilitar o acesso ao templo, são contratados ônibus que realizam o transporte dos fieis das cidades da Grande São Paulo. Os eventos, segundo frequentadores, não se limitam a simples cultos: “Tem a Santa Ceia, os Batismos, as reuniões dos jovens. A Igreja busca abranger todos, desde os adultos até as crianças”, afirma Giane Longui, que começou a frequentar a Igreja Universal junto com sua família, por influência do padrasto.

No salão da instituição religiosa, trombetas soam e cortinas se abrem para o início da celebração. O Pastor Márcio Carotti se apresenta e suas primeiras palavras fazem referência ao dízimo. “A oferta é uma coisa espontânea, tão santa quanto a palavra de Deus.”

A partir de uma citação bíblica das ofertas de Caim e Abel, Márcio chama os fiéis a fazerem suas doações. Todos começam a se levantar. O pastor avisa: “Tragam o CD e a Bíblia do Templo que chegaram!”. O primeiro produto seria vendido por vinte reais e o segundo, por cinquenta. Seriam aceitos cartões. A fim de impulsionar as vendas, as músicas do CD começam a tocar, assim, louva-se, novamente, ao Senhor.

Os fieis são constantemente estimulados a participar das atividades organizadas pelo Templo e a divulgá-las. Após as doações, o pastor anuncia o evento que ocorreria no domingo seguinte, a Santa Ceia. “Quem gosta de Jesus não tem vergonha. É preciso evangelizar, trazer as pessoas. E amá-lo em suas atitudes e ações. Você vai convidar uma pessoa para a Santa Ceia e eu quero que você mude a vida dela. Esse é o papel de quem tem o espírito de Jesus.”

Incentivar a divulgação pelo boca a boca é um artifício muito usado atualmente nas instituições evangélicas para conquistar mais frequentadores. Além disso, com as novas tecnologias, vêm surgindo estratégias com o intuito de conseguir mais fieis em divulgar os produtos do gênero gospel e facilitar o pagamento do dízimo, como a existência de cartões de crédito especiais para as igrejas, além de um aplicativo para celular, o iFé, para o pagamento de dízimo. É comum também a atuação nas redes sociais, como Facebook e Twitter por parte dos pastores, como Silas Malafaia, que promove a editora Central Gospel em suas publicações.

Os fieis que vão para o Templo de Salomão passam por uma revista, incluindo detector de metais. Nada pode ser registrado dentro do culto: os celulares e as câmeras fotográficas são guardadas em armários próprios. Os assentos também são indicados por funcionárias sorridentes vestidas de branco. Tudo é muito bem vigiado, como se os que comandassem a congregação evangélica não confiassem plenamente no respeito de seu “rebanho” pelas normas, as quais poderiam facilmente ser subvertidas.

Fé e consumo

A fatia do mercado representada pela população evangélica movimenta diversas áreas da economia. Turismo, indústria fonográfica, venda de bens e serviços e indústria da moda são alguns dos nichos direcionados a esse público. Segundo Andrey Mendonça, professor de Filosofia na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e coordenador do Programa de Religião e Espiritualidade no Consumo e nas Empresas (PRECE), as religiões arrecadam cerca de trinta bilhões de reais por ano. Desses total, 60% correspondem ao valor arrecadado pelas igrejas evangélicas.

As causa desses números expressivos pode ser compreendida de diferentes formas. Na visão do professor, esse elemento da religião é transcendente: “Ao comprar roupas de marcas evangélicas, o fiel acredita estar comprando algo que tenha a fé acoplada a este e que, ao adquirir aquilo, ele está sendo abençoado.”

Outro valor que envolve o mercado evangélico é a Teologia da Prosperidade. De acordo com essa doutrina cristã, a busca financeira e material seria um sinal da predestinação divina. Assim, o fruto do trabalho bem-sucedido deve ser “devolvido” a Deus na forma de doações. O religioso não pode também, segundo os moldes tradicionais, ostentar a graça a ele concedida. O professor Andrey Mendonça acredita que, atualmente, tudo funciona de forma diferente: “Hoje, nenhum dos artistas gospel e pastores têm vergonha de ostentar carros importados e viagens caríssimas. Não há nenhum problema quanto a isso, não basta receber, você precisa mostrar que é próspero”.

As instituições de cunho neopentecostal, influenciadas por essa teologia, pertencem a uma das três grandes divisões evangélicas: protestantes, pentecostais e neopentecostais. A partir das quais se ramificam em diferentes grupos. A fragmentação das instituições evangélicas é, segundo Andrey, benéfica para o mercado,  “Quanto maior o número de igrejas, mais opções o fiel tem para escolher a que mais lhe agrada”. Ainda de acordo com o professor, o mundo é fragmentado e líquido, sendo assim, as relações não têm a mesma fidelidade e finitude que tinham antigamente, “Hoje, você procura a melhor opção, a que mais lhe agrada e no mercado evangélico isso acontece da mesma forma”. Refletindo, portanto, na maneira como se estrutura o consumo na sociedade.