REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Ana Beatriz Azevedo, Beatriz Issler, Carolina de Barros, Laura Leite e Laís Franklin e Pedro Daher (Colaboração) Edição #58

No fluxo da rima

Além das denúncias às mazelas sociais, a nova geração do rap nacional se destaca pelos beats elaborados

É a música de resistência. Vem das ruas, das batalhas e retrata as vivências. O rap é a poesia que vem da margem, que aos olhos dos mais privilegiados é menos valorizada e subversiva. “Eles querem que alguém que vem de onde nois vem seja mais humilde, baixe a cabeça, nunca revide, finja que esqueceu a coisa toda”, canta Emicida, em uma de suas mais novas composições, Mandume. Quem rima escancara a realidade, trazendo à tona as indignações dos movimentos sociais.

A nova geração do gênero musical traz uma característica interessante em termos de composição, as referências. É muito comum encontrar menções a filmes, livros, personagens e, principalmente, outras figuras do rap, como por exemplo, o grupo Sabotage que faz referência ao grupo Racionais, Mc’s da zona sul de São Paulo: “som paloso, tenebroso, toca fita pionner, ouvindo Racionais passear no parque, 95 abalou, apavorou cidade quem é me compreende, quem é rap sabe”.  Assim como o rapper Eloy Polêmico se refere ao personagem de quadrinhos inglês Juiz Dredd, “informação é dinheiro, assim nasce o diabo, na rua, o Juiz Dredd tupiniquim a mando de quem? Sambar na lei é hobby é só pra quem tem!”.

O rapper e criador da festa Projeto Enxame, Zapi, da zona oeste de São Paulo, apresenta alusões musicais e acredita que esse estilo de música é algo produzido de forma orgânica, de dentro para fora. “Eu escrevo o que vem do coração e através das lentes da minha visão, da minha própria vivência, consigo interpretar a sociedade”, afirma. Reiterando o papel que o rap tem em apontar um questionamento a partir de uma visão individual, mas que gera uma emoção e compreensão coletiva.

Muitas das rimas começaram de improvisos em batalhas de rap, que acontecem normalmente durante as noites em ruas e vielas. De boné, bermudas largas e tênis, os jovens que sonham em ascender na cena musical, se posicionam à meia luz debaixo dos postes. Em uma roda, quem assiste à competição fica em volta de dois oponentes que têm segundos pra rimar, um respondendo ao outro, na velocidade do momento, com um tema escolhido na hora. O vencedor é aquele que obtiver a maior intensidade de palmas e gritos da platéia. Grandes nomes do rap atual surgiram assim, principalmente na famosa batalha da Santa Cruz, que acontece em frente ao metrô homônimo.

Foi o caso da MC Barbara Sweet, natural de Belo Horizonte, Minas Gerais, conseguiu visibilidade após viralizar com o vídeo em que responde insultos machistas durante uma batalha na Santa Cruz. Aos 13 anos, teve a primeira experiência com o estilo, ouvindo Racionais, Wu Tang, Dina Di e RZO e, por brincadeira, rimava e realizava o freestyle. Somente aos 16 anos encarou o segmento como algo sério para o futuro.

O rap levanta bandeiras e denuncia problemas, Sweet traz o ímpeto feminista para a sua rima e não teme em se afirmar feminista. O coletivo Minas no Mic, criado por ela em conjunto com outras MCs, Flocos, Kaká e Clara encorajam a presença de mulheres nesses espaços, majoritariamente formados por homens. Além dessa iniciativa, existe a Liga Feminina de MC’s, um duelo nacional de freestyle apenas para mulheres.

Eloy Polêmico, MC de 27 anos e ex-estudante de filosofia, é mais um dos representantes da zona norte de São Paulo. Em seus quatro anos de experiência, não deixou a desejar em termos de lírica, beat e composição. Rimar para ele, sempre foi a necessidade de dizer algo. E, inclusive, um prazer: “Eu inventava histórias, às vezes, fazia algumas músicas para a mãe do meu filho, mas sem pretensão alguma. Até que me vi tão imerso naquilo que não conseguia mais parar, então pensei ‘Por que não falar de coisas mais sérias?’ Foi aí que comecei a escrever coisas mais maduras”, conta.

A mensagem crua não é mais característica marcante da nova geração do rap. O objetivo é instigar o raciocínio, as letras devem formar uma mistura inteligente. Quando questionado sobre essa nova cara do rap nacional, Eloy comenta: “Quanto a música, e não a questão social que o rap envolve. Existe um estudo falando de técnicas de rima, modo de escrever, a maneira como você coloca uma palavra para rimar com outra, tudo isso engloba todo um método que você acrescenta na música para dar a sonoridade bacana para quem está ouvindo”.

 

APROPRIAÇÃO CULTURAL

A nova geração do segmento, não advinda da periferia, que não sofre com o preconceito racial, está sendo acusada de apropriação cultural. Eloy Polêmico conta que “Existem várias críticas, mas eu não consigo enxergar algo negativo nisso, porque, querendo ou não, é um espaço que o rap está ganhando. Acho importante destacar que a crítica deve chegar no ‘filhinho de papai’ que não está ligado em nada na vida e não sabe o que está acontecendo na periferia. Tem muito cara que pensa ‘meu som é da periferia’, mas não dá para fechar as portas para os outros”, analisa.

A função do rap é se preocupar com o próximo e realizar uma crítica com o intuito de alcançar o maior número de pessoas, acredita o integrante do grupo de rap paulista, Leal, “Eu não tenho preconceito nenhum, o cara pode ter milhões e gravar uma música. Todo mundo fala dos caras do Haikaiss [grupo de rap], que eles são ‘boyzão’, e daí? Eles tão fazendo um trampo sério. A crítica pode vir por outro olhar, eu posso não passar fome, mas posso falar de alguém que passa”.

Zi, um dos integrantes do Nume, grupo formado recentemente da região de São Caetano do Sul, com suas origens distantes da periferia, explorou a questão do raio de alcance da mensagem, mostrando que a apropriação cultural é na maioria das vezes construtiva: “acho que até expande o raio de crítica e de debate, sabe? Porque uma pessoa de classe baixa vai falar até onde ela vê, assim como uma pessoa de uma classe mais alta, então é um complemento, algo que se constrói em conjunto”.

Entretanto, as noções de protagonismo juntamente com a discussão da apropriação cultural são pautas desse movimento musical. Ainda que a ampliação crítica e a conscientização sejam construídas sob uma nova visão, se tornando assim mais abrangentes, é preciso saber o lugar de fala de cada indivíduo. “É muito injusto isso. Mas também é uma parada que cai naturalmente, não vai ser extinta. O cara que não é da periferia, que é branco, não vai ter a mesma essência que um cara que vem da periferia”, pontua o integrante do grupo de rap ALMA, Wendel.

Para Hardy, a voz daquele que vive na periferia tem mais credibilidade em comparação ao ‘‘turista’’, porque o rap é o seu cotidiano. “Você pode falar do que você entende, pode até estudar a fome, mas eu não sei como é isso de verdade. E se alguém que sente isso falar, vai ser muito mais considerado do que eu opinando”, conclui Hardy, integrante do Nume.

Além da responsabilidade em termos de composição, é muito cobrado pelos MCs uma postura em suas vidas, sendo uma  característica mais acentuada nesse gênero devida a carga de realidade que as composições trazem. Fazer rap não é somente escrever uma letra em um beat, é uma conduta e algo que você acredita.

Joe Sujeira, também da zona norte, explica que em termos técnicos o rap é a música mais fácil de criar, somente com um beat e um microfone a pessoa consegue performar o estilo, o que dificulta é ter a inteligência de criar uma rima boa que chama a atenção. “O rap é muito ligado a você fora da música. Eu sempre falo: ‘por que você não gostou dessa música?’. As pessoas respondem que não entendem o que o cara estava falando, assim acabam não acreditando que aquilo é verdadeiro”. Sinceridade é um valor do rap, senão o público não acredita, essa característica é uma questão de conduta dentro do movimento, explica Joe.

O gênero tem novas técnicas de rima, de beat, de flow, tem pessoas de todo lugar que fazem o som, mas a raiz continua viva cobrindo um buraco que a escola e a televisão nunca vão conseguir cobrir: o de ensinar a vida de uma maneira real em uma linguagem comum. “Essa é a causa do rap, educar de um jeito que a escola nunca vai conseguir”, diz o rapper Leal. O estilo é informação, que não depende do governo e muito menos da televisão. As rimas são bem pensadas e a coerência das letras é o diferencial. O estilo ecoa nas ruas, nos becos, na periferia, na cidade e dentro dos condôminos mostrando que a música, além de entretenimento, consegue realizar mudanças.