REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Guto Martini, Laís Glaeser, Vítor Ferreira, Julia Guadagnucci e Nathalia Parra Edição #58

Sexo em cena

Do softporn à zoofilia: o mercado da pornografia no centro de São Paulo atrai consumidores e gera polêmica

A fila para comprar o ingresso é curta. Geralmente, à luz do dia é possível ver duas ou três pessoas no guichê aguardando a vez para entrar nas salas de exibição. O chão é um tanto pegajoso, de maneira que o sapato faz um barulho estranho a cada passo. Depois de pagar quinze reais para o funcionário atrás da cabine de vidro e passar pela catraca, nota-se uma cesta cheia de camisinhas presa à parede — há aqueles que passam por ela sem reação, outros aproveitam. Logo em seguida, há um bar mal iluminado com alguns clientes bebendo cerveja ao som do jukebox. A seleção musical contempla todos os estilos: de Chitãozinho e Xororó a Lana Del Rey. Depois da porta do bar, estão as duas primeiras salas de exibição do cinema. É um ambiente escuro, iluminado apenas pela claridade que emana das telas.

As sessões do primeiro e do segundo andar são direcionadas ao público heterossexual, e as do terceiro destinam-se à exibição de filmes gays. Segundo o barman Júnior*, que preferiu não revelar o nome, o grupo que frequenta o Cine Roma da República é composto, em sua maioria, por homens: “Às vezes, entram uns caras aqui que vêm porque são casados e acabam ficando com vergonha de assistir aos filmes em casa e serem pegos. Mas é tudo igual, a putaria rola solta!”.

As mulheres constituem um grupo minoritário e, quando aparecem, costumam estar acompanhadas pelos maridos. Pode parecer estranho um casal se aventurar em um cinema pornô, mas Júnior* afirma que é comum: “Eles vêm para fazer swing com outras pessoas enquanto assistem aos filmes”. Alguns homens ficam à espreita de casais. No mundo da pornografia, eles são conhecidos como gaviões e, normalmente, se excitam ao observar outras pessoas transando. Outras vezes, eles participam do sexo ou apenas se masturbam.

Além das salas de exibição, o Cine Roma abriga, em suas dependências, uma locadora onde o cliente pode alugar o filme e assistir sozinho dentro de uma cabine com TV acoplada — não raramente acontece de duas pessoas ocuparem  a cabine ao mesmo tempo.

As mulheres nas capas dos DVDs parecem sufocadas com o pênis em suas bocas e obedecem ao papel que a pornografia as designou: dominadas e passivas. O homem exibe seu falo com orgulho, viril, penetra o corpo feminino sem nenhuma delicadeza. É possível encontrar títulos tradicionais e outros de temáticas consideradas “mais pesadas”, como sodomia e zoofilia. A funcionária Esmeralda* afirma que os gays assumidos costumam frequentar mais a locadora: “Nos cinemas entram mais as travestis e os enrustidos. Agora, na locadora, vai é quem não precisa ficar disfarçando”. As cabines são extremamente abafadas e têm um odor forte de suor e produto de limpeza. Não é difícil encontrar sêmen escorrendo nas paredes após um cliente usar o espaço, também não é raro ver gente brigando com algum funcionário porque, segundo eles, “o tempo acabou antes do combinado, eu paguei para usar vinte minutos e só foram quinze!”.

Engana-se quem pensa que o estabelecimento descrito acima é uma exclusividade da Praça da República. Embora passem despercebidos devido ao cotidiano apressado e ao vai-e-vem das pessoas, essa região do centro de São Paulo está permeada por diversos cinemas especializados em pornografia. Outro exemplo famoso de estabelecimento do circuito erótico é o Cine Dom José; este, diferentemente do Roma, já foi um cinema tradicional frequentado por crianças e adultos. Hoje, seu projetor ilumina a tela apenas com cenas de sexo e, consequentemente, seu público ficou mais restrito. A faixa etária das pessoas que frequentam os cinemas eróticos varia, a única exigência é que tenham mais de 18 anos.

Inclusive, o gênero predominante no ambiente é o masculino e o grupo etário é composto por idosos. Homens velhos que, na fila de entrada, costumam ser discretos e rápidos, mas na sala de exibição parecem se sentir mais dispostos a encarar os outros a procura de algum parceiro. Enquanto os atores transam na projeção, os espectadores se dividem entre os que apenas assistem em um canto, os que se masturbam — uns olhando para o filme, outros prestando atenção na pessoa ao lado — e os que se agrupam para fazer sexo oral e anal. O indivíduo que está assistindo ao filme sozinho é, quase que invariavelmente, abordado por uma travesti em busca de cliente — muitas estão atrás de trabalho, indiferentes às placas de “proibido fazer programa” que alguns locais colocam na entrada.

Na tela, as cenas apenas reforçam o fato de que a pornografia é mais do que um dos pilares responsáveis pela naturalização da violência contra a mulher. Os filmes são a demonstração de um contrato sexual pré-definido, no qual só os homens se beneficiam. Os espectadores assimilam a relação íntima à lógica da pornografia e passam a desejar fazer sexo com a mulher vendida por esse mercado, ou seja, com a “mulher-objeto” que se encontra disponível ao prazer masculino. A socióloga norte americana Gail Dines, feminista e professora na Faculdade Wheelock (Boston, EUA), em seu livro Pornland explica como é impossível ver imagens pornográficas sem ser influenciado por elas, principalmente aquelas com as quais nos masturbamos. Segundo Dines, a pornografia celebra a violência e a brutalidade contra mulher ao mostrá-las em situações de humilhação e crueldade. Nos filmes pornôs, diz a socióloga, apesar de toda degradação a qual são submetidas, o papel imposto a elas continua sendo o da submissa que implora por mais e não consegue dizer não ao homem.

As paredes das cabines dos cines eróticos são marcadas pelo prazer de seus consumidores / Foto: Laís Glaeser

Do outro lado da rua

Em frente ao Cine Dom José, há uma sequência de lojinhas dedicadas aos materiais eróticos. Elas são discretas em suas fachadas; dessa forma, apenas os transeuntes mais atentos notam qual é o viés do comércio. Apesar de serem aparentemente genéricas, cada uma possui alguma característica que a diferencia das demais: às vezes é a disposição dos produtos ou a coloração das paredes, mas o decisivo na especificidade de cada loja são os funcionários e donos. Se existem aqueles que estão sentados atrás do balcão apenas para vender e  se mostram sem paciência para conversar sobre qualquer coisa que não resulte em uma venda, há também os que não se incomodam em receber algum curioso de passagem.

A Diferenciada Mídia é um desses locais que se destacam pela boa vontade dos que ficam atrás do balcão. Ao atravessar a rua do Cine Dom José e adentrar o número 293, o transeunte encontra de cara uma vastidão de DVDs que pulam das estantes de todas as paredes internas. No estreito centro da loja, um grande display de vidro exibe produtos que variam entre pênis de borracha de todos os tamanhos, vaginas realistas, bolinhas tailandesas, substâncias que prolongam o orgasmo e outros brinquedos sexuais. Passando pela geladeira de bebidas alcóolicas, avista-se uma escada que leva para o andar de baixo, onde se encontram as cabines. Apesar de também serem abafadas e possuírem o mesmo cheiro das do Cine Roma, as da Diferenciada Mídia são mais claras e menos cavernosas – o que torna o ambiente mais confortável.

A loja é propriedade de Juciê, como é conhecido. Embora ele não goste de ficar anunciando para todo mundo, “costumo dizer que sou ajudante de venda, fico mais na minha”, afirma. Mesmo assumindo essa postura mais reservada, seus contatos não são poucos. O comerciante é entendido do assunto, além de ser conhecido na região: “Às vezes vem gente fazer filme aqui, eles gravam algumas cenas num quartinho lá em cima”, diz o proprietário apontando para o andar superior. A equipe de reportagem da Revista Esquinas perguntou ao dono do estabelecimento quais filmes eram mais vendidos. Juciê contou que a preferência dos clientes são os protagonizados por travestis e lésbicas. Ele pegou um dos títulos da prateleira cuja capa retratava duas mulheres fazendo sexo oral e contou que conhecia aquelas atrizes: “Aqui, no Brasil, elas são desvalorizadas e a maioria faz programa na noite”, conta. Segundo Indianara Alves Siqueira, que é transexual, prostituta e ativista LGBT, tanto as mulheres cisgêneras quanto as trans, que não se identificam com  o gênero imposto no seu nascimento, são desvalorizadas na indústria pornô brasileira. “Muitas atrizes completam a renda sendo prostitutas, mas não só elas, existem mulheres de outras profissões que acabam precisando fazer isso também, são as chamadas ‘putas ocasionais’”. Indianara ainda diz que, justamente pela desvalorização que sofrem, não existem tantas atrizes transexuais no mercado nacional, “97%, na verdade, acabam na prostituição”, pontua a ativista.

As vitrines dos estabelecimentos chamam a atenção dos trauseuntes / Foto: Laís Glaeser

Anonimato permissivo

Luiz*, que trabalha na Diferenciada Mídia há oito anos, é formado em Publicidade e Propaganda, mas, após alguns trabalhos na área, acabou indo para o ramo das vendas de pornô. “Comecei vendendo VHS erótico com um amigo, logo depois entramos na era dos DVDs e começamos a importar material exclusivo. Depois, em 2007, comecei a trabalhar com o Juciê”.

O contato do publicitário com o mundo da pornografia permitiu que ele acumulasse um bocado de histórias sobre a região onde trabalha. Uma delas aconteceu em uma casa nas redondezas que tinha, entre outras atrações, um Glory Hole — parede com um orifício para colocar o pênis para quem estiver do outro lado —, “um homem enfiou o pinto no buraco e alguém o cortou com uma navalha. O cara ficou todo ferrado!”. A pessoa que atacou fugiu e não foi pega: “Muita gente vem para o centro da cidade consumir pornografia porque aqui é como se todo mundo perdesse a identidade. Ninguém sabe direito quem você é. Não tem parente, amigo, ou chefe por perto” conta o publicitário, que já encontrou até padres no local. “A gente só descobre que são religiosos porque eles acabam contando. Na maioria das vezes, vêm com uma história de que estão assistindo aos filmes gays para estudar e apresentar um projeto de conscientização nas igrejas. Quem engole essa?”, ironiza Luiz*.

Conhecer o mundo pornográfico do centro de São Paulo pode ser uma experiência chocante. A primeira sensação ao olhar para a maioria dos frequentadores é a de que estamos perto de viciados. De fato, o olhar vazio, os trejeitos vacilantes e a assiduidade com que algumas pessoas interagem com o lugar remetem a um ambiente quase tão perturbador quanto a cracolândia. Fazendo referência ao Antigo Testamento, a funcionária Esmeralda*, do Cine Roma, declara: “Quando o assunto é sexo e desvirtuamento, o que acontece nessa região é o mesmo que aconteceu em Sodoma e Gomorra”.