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Por Bruno Galvão e Victor Bianconi Edição #65

Em crise com o sucesso

Vencedora de quatro “Oscars” das HQs, Bianca Pinheiro discute os desafios de sua profissão

A carioca Bianca Pinheiro era uma fã de histórias em quadrinhos como tantas outras crianças. Devorava as aventuras da Turma da Mônica de Mauricio de Sousa, desenhava suas próprias histórias e abraçou novos gêneros ao crescer. “Mais velha, eu entrei no mundo dos mangás. Super-herói nunca me chamou a atenção”, conta. A paixão por HQs nunca foi deixada de lado. Decidiu trabalhar com isso: entrou em Artes Gráficas na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, e a família, vendo seu amor pela arte, apoiou a decisão. “Minha mãe me ajudou. Ela que disse qual curso combinava comigo”. Mas hoje Pinheiro já não tem mais tanta certeza sobre seus rumos nesse meio.

Antes mesmo de publicar suas obras independentes, a autora pensava que seria desenhista da Mauricio de Sousa Produções (MSP). Talvez por ironia do destino, chegou lá e agora trabalha com a Turma da Mônica. Mas sente que falta algo.

A epifania da descoberta de obras independentes veio com a leitura de Retalhos, de Craig Thompson, e Umbigo sem Fundo, de Dash Shaw. Foi seu ponto de virada. Ali viu que quadrinhos não se restringiam às crianças. Em 2012, Pinheiro surgia como um símbolo da nova geração de quadrinistas brasileiros, ao lado de Vitor e Lucianna Caffagi, Felipe Massafera, Danilo Beyruth, entre outros.

Autorretrato da quadrinista Bianca Pinheiro
Bianca Pinheiro / Reprodução

É raro o público comum conhecer quadrinistas brasileiros além dos já estabelecidos Mauricio de Sousa e Ziraldo ou, no caso das tiras de jornal, Laerte, Angeli e Glauco. Esse foi o desafio de uma autora completamente desconhecida: ganhar notoriedade. Já na primeira obra, Bear, uma webcomic (quadrinho publicado exclusivamente no meio digital), o traço delicado e a história cativante de uma garotinha e seu urso chamaram a atenção do público. Inclusive, de um editor da MSP, Sidney Gusman, responsável por catapultar novos quadrinistas brasileiros para o mercado editorial com os projetos MSP 50 e Graphic MSP. Comovido pela arte de Bianca Pinheiro, convidou-a para fazer uma ilustração para o álbum de 50 anos da personagem Mônica em 2013.

Um ano depois, um novo trabalho, agora com o thriller Dora. “A Bianca tem algo que adoro. Ela se desafia e sabe contar histórias”, elogia Gusman. Transitando entre tramas de terror, para o público infantil e surrealismo, a fã de mangás publicou nove obras até 2019. Seus trabalhos renderam quatro prêmios HQMix – o Oscar brasileiro dos quadrinhos – nas categorias Novo Talento, em 2015, Melhor Publicação Infanto-Juvenil, em 2017, e Melhor Publicação Independente e Melhor Publicação Independente Edição Única, ambas em 2018. Nesse meio tempo, voltou às origens, criando duas Graphic MSP justamente com a personagem Mônica. “Além de transitar muito bem entre as cores, os desenhos e os gêneros em suas publicações, adoro como a Bianca é carismática e solícita”, comenta Daniela Utescher, dona e co-fundadora da Ugra Press, editora e expositora paulistana de talentos das HQs nacionais.

Poucos artistas conquistaram fama e prestígio em uma escala de tempo tão curta. “Ela tem potencial para outras mídias, não só para os quadrinhos”, enfatiza Gusman. O curioso, entretanto, é Pinheiro pensar em largar justamente aquilo que ama. Carinho do público e prêmios conquistados não bastam para a felicidade da quadrinista. “Eu sou uma pessoa solitária, muito reservada, acho. Bichinho de ficar em casa. Eu, meu marido e nossos gatos. E eu gosto disso”, explica-se. Relata que ama desenhar suas obras, mas odeia na mesma medida vendê-las. “Ficar dez horas em um evento tentando vender [seus trabalhos] me massacra”, enfatiza.

Não é para menos: o país passa por uma crise editorial com o fechamento de livrarias e gráficas e dívidas cada vez mais irreversíveis. O pedido de recuperação judicial da Editora Abril, em agosto de 2018, e também os das livrarias Cultura e Saraiva, em outubro e novembro do mesmo ano, respectivamente, são exemplos de um efeito dominó no mercado de livros e quadrinhos. “Trabalhar com editora, tirando a MSP, e ganhar 10% do valor do preço de capa de um gibi… Talvez não valha a pena ficar insistindo nos quadrinhos. Estátua de gesso não põe comida na mesa”, desabafa a quadrinista. Uma constatação que tem afetado ela e boa parte dos profissionais de HQ na atualidade, infelizmente.