REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Lívia Vitale e Marcela Schiavon Edição #60

Casas sobre as águas

Especial Holanda

A vida de quem conhece a fundo os canais de Amsterdã

Eles estão por toda a parte. Amsterdã, a capital dos Países Baixos, é regada pelas veias, artérias e capilares de água. No passado, a grande circulação de produtos entre um navio e outro motivou a criação de portos na cidade. Turistas se uniram aos trabalhadores do século XVII – período no qual os holandeses, tradicionalmente ótimos navegadores e cartógrafos, dominaram o comércio   mundial –  que já conheciam as águas ao transportarem mercadorias, como armas, açúcar e porcelana. Juntos, na tarefa de se deslocarem pelos canais, descobriram os segredos de Amsterdã no balanço da correnteza. Quatro séculos depois, inúmeros barcos que cumprem a função de casas encontram-se estacionadas nas laterais dos rios,  como se os canais fossem ruas e, os barcos, carros e grande parte deles se mantém ancorados permanentemente, camuflados no cenário histórico da cidade.

Corredores estreitos, portas que exigem afastamento para serem abertas, poucos cômodos, apenas um banheiro, mas uma vista distinta. A sensação de que as leis da física deixam de existir e a água sustenta os pés, como se fosse possível caminhar pela água. Paralelas ao barco, construções em tijolinhos coloridos se findam com a vista de uma ponte ovalada. Para entrar neste barco em específico, é necessário descer uma pequena escada para sair do nível do calçamento e chegar ao nível do mar. Há apenas uma porta localizada na parte central. Dentro, um pequeno corredor interliga o quarto principal, o único banheiro, a sala e cozinha.

Ter um barco não é sinônimo de luxo, porém também não há desconforto para as mais de 2500 famílias que optaram por morar em barcos nos canais de Amsterdã. Dentre elas, encontra-se o simpático Ad Kox, aposentado de 59 anos, que não hesita em mostrar a casa para os turistas curiosos que caminham pela calçada. “Moramos aqui durante a semana e, geralmente, em finais de semanas, nós alugamos o barco. Meu amigo, que divide a casa comigo, está passeando com o nosso cachorro agora”. O custo para comprar um barco é de cerca de 40 mil reais e para mantê-lo ancorado em uma marina holandesa é de 30 reais por 0,3 metros, ou seja, por volta de 600 reais a cada 6 metros.

Nos anos 1970, as casas-barco eram como as kombies hippies de Amsterdã, um estilo alternativo e ilegal de se viver. Hoje, morar em uma casa flutuante possui o suporte do próprio governo holandês. “Por um tempo, eu não tinha casa e morava com amigos. Depois, comecei a procurar por um lar e o irmão do meu chefe, que estava morando neste barco, me mostrou e acabei comprando. Agora, é como uma casa própria” orgulha-se Kox que vive em seu barco antes de se tornar uma tendência. Quem decide morar nesse tipo de moradia, deve aceitar, por lei, que o o barco fique estacionado.

Foto por Lívia Vitale

A infraestrutura básica, que inclui eletricidade e água, é conseguida por meio de conexões a fontes de abastecimento. Desde que os impostos sejam pagos, os moradores marinheiros podem usufruir dela. A cada quatro anos é preciso transportar o veículo para uma doca porque o barco, depois de tanto tempo parado, precisa de uma limpeza. Lá, retira-se toda a sujeira fixa no casco, conhecida como craca, e é realizada uma manutenção para impermeabilizar a superfície submersa. Além disso, a lógica imobiliária já foi incorporada às casas barco. Assim, o preço inclui também a localização dele. Os três canais mais requisitados são Herengracht, Prinsengracht e Keizersgracht. Como afirma Kox: “Tenho que pagar uma taxa pelo local em que eu estou morando também. Esse valor é para a cidade de Amsterdã”.

Segundo ele, não é tão frio no inverno. Como um típico holandês, acostumado ao clima extremo, a chuva e o vento não o incomoda, mesmo estando mais próximo da água. Parece surpreendente imaginar que o movimento do barco não atrapalha tanto quanto a agitação do centro de Amsterdã. A turista inglesa, Geórgia Donald, de 48 anos, que passeia pela primeira vez na Holanda, preferiu a água em vez da terra como hospedagem. Para ela, que fez questão de mostrar o barco pequeno em que está hospedada, com um quarto, uma sala e um banheiro, “O balanço das águas não é nada se comparado ao som dos sinos do santuário Basílica de São Nicholas”. Kox, pelos anos de experiência, resolveu o problema com dois vidros grossos, que isolam barco contra ruídos indesejáveis. Quanto ao balançar, ele afirma que depende muito do barco que passa ao lado. “Quando o tempo está muito bom, ensolarado, como agora, uns vinte graus, muitos barcos passam ao lado. Aí, pode ser um problema”.

A união dos próprios moradores de barco é a melhor opção para ter segurança, eles podem avisar uns aos outros se houver alguma manifestação suspeita. Mas parece que esse tipo de casa pode ser um cantinho de isolamento quando se quer. “Se você vive na cidade de Amsterdã terá sempre os seus vizinhos ao lado, em cima, embaixo e estou livre de tudo isso. Posso dizer que é muito relaxante”. Kox se despede afirmando que deveria terminar a limpeza do barco, de que cuida com muito carinho.