REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Bárbara Gil e Camille Carboni Edição #60

Entre cachos e inscritos

Criadora de um canal no Youtube sobre cabelos e maquiagem, Kamila Tchara ajuda mulheres a assumirem sua identidade

No bairro de Sítio Morro Grande, na periferia da Zona Norte de São Paulo, mora Kamila Tchara e seu marido, Anderson Silva. O apartamento, além de casa, também é o cenário dos mais de 40 vídeos no canal do Youtube de Kamila que, aos 27 anos, organiza sua agenda entre emprego,  gravações e trabalho como maquiadora.

É na frente do notebook que Kamila passa boa parte de seu tempo livre, administrando o canal Universo Feminino. Tudo começou em 2014, com a criação de um blog sobre cabelos cacheados. “Uma amiga minha estava em transição, e eu sempre a ajudava e dava ideias de bons produtos para o cabelo, até que ela me perguntou por que não fazer um blog”.

Mas nem sempre a blogueira, formada em administração de empresas, pode dar dicas sobre crespos, já que apesar dos pais serem cabeleireiros, ela manteve os cabelos alisados até completar 19 anos. “Alisei quando tinha oito anos. Minha mãe passava [escova progressiva] porque eu tinha muito cabelo e dava um trabalhão”. A necessidade de voltar aos fios naturais veio quando caindo, fracos e quebradiços, os cabelos não conseguiam aguentar os processos químicos do alisamento.

Começou a procurar formas de recuperar cachos, e descobriu a transição capilar. Ficou nove meses nesse processo, em que químicas são deixadas de lado até o cabelo crescer e voltar à sua forma natural. Porém, uma crise de autoestima a fez voltar com a progressiva. O arrependimento, logo depois, trouxe a decisão de passar pela transição novamente. Mais nove meses se passaram e era hora de outra grande mudança: o big chop (grande corte), todo o cabelo danificado foi cortado.

Kamila ainda relatou que, durante a transição, o marido não se acostumou de imediato com as mudanças, assim como seus parentes mais próximos. Sua mãe, inclusive, insistia que o cabelo da filha não formaria cachos de jeito nenhum. “No início, minha família falava ‘nossa, mas por que você fez isso? Era melhor antes’, e isso me chateava”. Para ela, o apoio familiar é essencial em momentos como a transição capilar, que pode afetar a autoestima da pessoa. A maquiadora formada pelo SENAC, começou a se aprofundar mais no assunto e quando se sentia insegura, passou a conversar em grupos de mulheres cacheadas no Facebook, que têm o objetivo dividir experiências e incentivar mulheres em processo de transição.

Hoje, sua autoestima é percebida nos vídeos do canal, idealizado partir da proposta de uma marca de produtos capilares, que sugeria a produção de vídeos para uma parceria. Completou um ano em outubro e o canal está próximo da marca de 6 mil inscritos, que começou a crescer com a audiência das leitoras de seu blog e, principalmente, com a divulgação que Kamila promovia nos grupos de cacheadas no Facebook, que chegam a ter mais de 200 mil membros.

Os vídeos, que antes eram gravados pelo celular, agora contam com a ajuda de uma câmera semiprofissional, presente do maior incentivador do blog, o pai de Kamila. A responsabilidade técnica fica com Anderson, definido como “marido, fotógrafo, empresário, motorista, tudo!”, enquanto a blogueira comanda os processos de criação. Tudo gira em torno de cuidados capilares, com vídeos como “5 dicas que toda cacheada deve saber”. Porém, o conteúdo também inclui moda e maquiagem, sendo esse seu foco profissional no momento. Além de seu emprego como administradora, ela trabalha como maquiadora nos fins de semana e pretende abrir um espaço de maquiagem, e investir em equipamentos e iluminação para gravar tutoriais.

Kamilla se tornou referência por meio da internet, e percebeu como a sua postura diante de seu cabelo foi capaz de influenciar mulheres mais próximas. Depois da resistência inicial, sua mãe voltou aos cachos, assim como suas primas e vizinhas, que começaram a repensar a atitude de alisar os cabelos quando Kamila passou pela transição capilar. Sua decisão refletiu no seu ambiente de trabalho. “Eu sou a única cacheada, têm negras mas todas com cabelo relaxado, mas agora uma moça cortou por querer ficar com o cabelo igual ao meu”.