REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Lívia Vitale e Marcela Schiavon Edição #60

Um refúgio em meio ao caos

Especial Holanda

Em Arnhem, moradores voluntários de uma cafeteria prestam auxílio a refugiados que chegam à Holanda

A comunidade de Arnhen, na Holanda, é conhecida pelo seu lado acolhedor. Apesar de ser uma cidade grande, ainda é possível notar o ar de cidade interiorana. Todos os estabelecimentos têm uma ótima combinação: chá e poltronas que, juntos, passam a sensação de tranquilidade. Dentre eles, uma nova cafeteria chama a atenção com pássaros brancos simbolizando a paz, enfeitando a porta. Ao fundo da loja há um local repleto de blusas, calças, sapatos e acessórios masculinos. Açúcar, biscoito e cerca de dez voluntários, homens e mulheres, dispostos a ajudar. Atrás do sofá, uma cortina que abriga guarda-roupas e sacolas lotadas com sapatos e acessórios, como boinas, cachecóis e luvas para doação a ser entregue para refugiados, já que o país é muito frio. Essas pessoas também disponibilizam tempo para ajudar com, desde aulas de holandês até companhia para jogar dominó.

Com baixo índice de criminalidade, a Holanda começou a abrigar refugiados em prisões. Há mais de cinco anos, a medida vem sendo adotada a fim de que centros prisionais desativados no país ganhem uma boa função. Em contraponto, alguns bairros holandeses decidiram fazer diferente e começar a inserção social daqueles que buscam alento, em cafeterias. Como muitos não podem trabalhar legalmente no momento, não conseguem dinheiro para sobreviver, pois para se empregarem de maneira legal, precisam solicitar um visto de turista ou permissão para trabalho, mas ambos são custosos. Porém, para que imigrantes se reinserissem o mais cedo possível na sociedade realizou-se, de porta em porta, uma espécie de pedido de colaboração em novembro de 2015. Uma comunidade, na cidade de Arnhen, comoveu-se e começou a doar roupas e dinheiro a quem chegava.

Pequenas boas ações têm feito o possível para tornar os dias dos refugiados um pouco melhores. A Arnhem para os Refugiados (AVV) é um desses lugares. Segundo a voluntária Annet Storm, de 28 anos, “o que muitas dessas pessoas precisam quando chegam à Holanda é entrar em contato com a sociedade”. Com cabelos curtos, sorriso cativante, vontade de fazer a diferença, ela conheceu a iniciativa por morar próximo ao local e notar crescente movimento em uma rua quase abandonada e, atualmente, disponibiliza o seu tempo para ler e ensinar idiomas aos que ali procuram um apoio. O café tem como objetivo colocá-los novamente em contato com as pessoas: sentar, beber, jogar e socializar. Rebecca Erbrink, de 20 anos, é holandesa de classe média alta, estudou em Arnhem e acrescenta: “O café é uma ótima alternativa para quem acaba de chegar a um país completamente diferente, com costumes muito distintos”.

Encontrar acolhimento. Desde a Segunda Guerra Mundial, a Europa nunca recebeu tantos refugiados. De acordo com a Agência da ONU para Refugiados (Acnur), apenas em 2015, cerca de 60 milhões de pessoas se deslocaram no mundo em razão de conflitos. Isto equivale a quase quatro vezes a população atual da Holanda, onde 40 mil refugiados foram recebidos no ano passado, quando Klaas Dijkhoff, ex-secretário de Estado da Segurança e da Justiça, declarou que 4.200 pessoas, fugitivas de guerras, chegaram à Holanda em apenas uma semana.

Muitos deles não querem conversar e, os que aceitam, sentem-se envergonhados, tristes, amargurados. No café, dois homens pedem para não tirar fotos e não querem ter os nomes, idades e profissões reveladas. Ambos são negros, magros e roem as unhas. Um afirma ter deixado filhos e esposa. Outro, a mãe. A princípio discutem entre si, com um inglês fluente, pois discordam sobre quem perdeu mais. No fim, entram em acordo: família é família e estar sozinho em um país desconhecido é ruim.

Yahya Mukhtaar Mayikey , de 32 anos, é outro refugiado, nasceu na Somália e passou um mês viajando. Ele é alto, negro, careca, evita olhar nos olhos e percorreu, da Somália até a Holanda, um longo caminho. Foram sete países e muitas perdas. Hoje, está sozinho e sem saber onde ficou a família. Afirma gostar dali, do ambiente, até confessa que a Holanda é um bom país, mas não deixa a tristeza de lado, mesmo sorrindo. Para ele, não conseguir se comunicar com nenhum dos colegas do albergue onde mora causa angústia e desejo de voltar para casa. Desabafa confessando que a Europa é muito diferente do que ele pensava, as pessoas estão dispostas a ajudar, embora ainda haja um plano de fundo com base em muita intolerância.