REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Ugo Sartori Edição #60

Rap nas ruas

É sexta-feira. Os bares fervem e na esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta, na frente do Banco Safra, vê-se uma aglomeração. Roupas escuras, largas e bonés fazem o conjunto de quem está ali. Sem microfone, sem caixa de som com beat, é tudo na garganta. Ao som do beatbox (batidas com a boca) feito por diferentes pessoas que se revezam, os MCs soltam suas rimas conforme o tema escolhido pelo público. Cada um tem trinta segundos para fazer seu som, mandar sua ideia, uma realidade transcrita em versos. Ao final, o apresentador grita o nome de cada um e o que for mais ovacionado segue na batalha.

Por toda a cidade, minas e manos se encontram para o desafio de rimas. As batalhas de rap ocupam o breu da cidade, quando cai a noite e a movimentação muda. As calçadas das grandes avenidas perdem um pouco do fluxo das horas anteriores, os passos diminuem o ritmo. Nas praças e esquinas, o número de pessoas cresce. Assim se conhecem os MCs por São Paulo. A data do surgimento das batalhas não é exata, mas a partir de 2000 elas tomaram a cidade.

A roda é formada pelo público e no centro ficam o apresentador e os MCs que vão disputar uma vaga para a próxima fase; o número de etapas depende do número de participantes inscritos no dia. Existem dois tipos de batalhas: as de sangue e as de conhecimento. Na primeira, os rappers se atacam com palavras afiadas e rimas improvisadas, xingamentos são comuns, pois a intenção é “tirar sangue” do adversário. Já as de conhecimento têm outro estilo, vence quem tiver a melhor rima sobre algum tema que pode ser pré-definido pelos organizadores, ou que pode ser escolhido pelo público na hora. Mas, em ambas, vence aquele que não perder o ritmo, a ideia, a rima e o improviso. O público é quem decide o ganhador: o MC mais aplaudido segue para a próxima chave da batalha. Elas são uma oportunidade para os novos rappers mostrarem seu talento e ganhar notoriedade.

MC é compromisso. “Sexta Free – Batalha Racional” é o nome da competição que acontece desde 2011 com uma pegada menos agressiva. Homens e mulheres do coletivo Kush Crew, em 2010, rimavam, faziam freestyle e curtiam rap. Mas quando pensaram em iniciar uma disputa de rimas queriam que fosse diferente. As batalhas sanguinolentas já existiam em São Paulo, então organizaram uma de conhecimento, como já existia no Rio de Janeiro.

Rafael ‘Smoke’, de 26 anos, um dos organizadores da Kush Crew completa: “A partir daí rolou a Sexta Free – Batalha Racional. Batalha de sangue é daora, tá ligado? Você tirar um barato com o outro: tamanho, altura, gordura, só que uma base para o MC é o conhecimento. Então, pensamos que uma batalha do conhecimento vai puxar o intelecto que é o que a gente quer!”. Dito e feito, os MCs têm que buscar no fundo da cabeça rimas para qualquer tema: transporte público, homofobia, segurança, educação, ou até sobre um fiel que vai à igreja.

Magida, de Porto Alegre, perto dos 30 anos, foi a única mulher que batalhou naquela noite. Rimou um pouco, mas logo parou porque se sentia incomodada com a diferença de idade entre ela e os outros MCs. “O lance é o seguinte, tu tem que falar, tem que passar o que você sabe. Não importa onde tu tá, a mulher vai ser minoria”. Mas ela prova que mulher sabe rimar. Só não levou a batalha da noite porque se enrolou no tema “lua cheia de sonhos”, que acabou caindo para um lado mais emocional e complicado.

O campeão daquela sexta-feira, Vick, de 23 anos, morador da Brasilândia, não gosta de batalhas de sangue. Com uma voz marcada pela revolta explica o motivo: “Não tenho nada contra quem ataca! Eu comecei atacando, só que hoje não faço isso, porque quando você foge de uma amarra do sistema, não tem como você se atar no nó de novo. E a amarra do sistema é a batalha ser divertida, engraçada, ser algum episódio do programa do Danilo Gentili ou do CQC, para playboy branco europeu ver. E eu não tô aqui pra atacar meu próprio irmão, se for pra atacar, vou atacar quem tá errado!”.

Diferentemente do que o rapper Vick acredita, a Batalha da Santa Cruz, uma batalha clássica de sangue, pretende ir além do xingamento. Ela acontece na saída da estação do metrô desde 2006. É a mais antiga de São Paulo e referência em todo o país. Consiste em três rounds, sem tema, só ataque. Mas, como disse Gah MC, o organizador da noite, “a batalha de sangue desenvolve o pensamento, o raciocínio. Porque é muito mais do que só xingar o cara, tem toda a ideia de criar uma metáfora, um trocadilho, tem que fazer a galera entender. Batalha de sangue é atitude, você vai xingar o cara, mas vai fazer isso bem feito, se impor e isso tudo você pode levar pra vida, na escola, no trabalho”.

A batalha acontece todo sábado e é uma das maiores da cidade. Logo no topo das escadas rolantes do metrô estão MCs, plateia e organizadores. Assim que todos se inscreverem, a roda fecha e começa a batalha. Ela acontece sem beat nenhum, o único som são as vozes grosseiras que criam uma melodia de ataque. No início, alguns vêm mais de mansinho, meio acanhados para sair xingando alguém que eles nem conhecem. Mas quando vai chegando para o final, dá para sentir o peso das palavras, esperando um pequeno vacilo do adversário para vir com tudo e nocauteá-lo. Segundo Gah, é disso que veio o rap. “A raiz da batalha de MCs de qualquer lugar do mundo é essa mano, esse ataque”, afirma. Como é uma batalha de sangue, nada mais esperado do que o próprio a flor da pele, não é comum, mas alguns participantes acabam perdendo o controle. No sábado, logo no começo da batalha, um MC xingou a avó do outro e acabou sendo desclassificado. O clima ficou bem tenso, mas nada que atrapalhasse o evento. O próprio Gah diz que não é comum, mas acontece.

Mas as batalhas não são apenas violentas. Na mesma noite, duas irmãs gêmeas, que ainda nem alcançaram os 13 anos, acompanhavam seu pai recitar uma poesia de autoria própria. A batalha do Santa Cruz é próspera e rica em cultura, naquele mesmo lugar já germinaram MCs que hoje fazem sucesso e estouram pelo país, mas que tiveram suas raízes no Metrô Santa Cruz: Emicida, Projota e Rashid, são alguns nomes que começaram com as improvisações lá.

Junto e misturado. Distante do centro da cidade, atravessando-a sentido Zona Norte, chega-se pela linha 7 do trem à estação Francisco Morato. Na Rua Juvenal Harttman, acontece a Batalha da Estação. Essa tem uma pegada diferente das outras, mas o foco ainda é a briga de freestyle entre MCs e outras vertentes do Hip Hop. O fundador Paulo Malik, militante há mais de 25 anos, explica que o movimento Hip Hop une o grafite, o break dance, o beat e as rimas. “No intuito de querer fortalecer essa cena do hip hop, eu tive a ideia de fazer a batalha e nisso convidei uns parceiros para cada um contribuir na sua área”, conta. O evento ocorre uma vez por mês, sempre às sextas-feiras e dois rappers cuidam da batalha, Luis Preto e Mamuti 011. Além deles, DJ Clevinho faz o som, há um curador de grafite, Bonga; e Denis Jaconto, que cuida do território da dança. Todos vivem na região e estão no projeto desde o início.

A batalha, em si, é voltada para o conhecimento, Malik diz que preza por isso, pois não quer ver qualquer tipo de preconceito na praça, “tentamos dar primazia para o conhecimento, para que não tenha palavras de baixo calão, homofobia ou bullying”. Assim, vale tudo na disputa, menos o desrespeito. E como a ideia era fazer mais do que só as rimas pelas rimas, os intervalos da batalha são preenchidos com shows de outros estilos musicais, leitura de poesias, lançamento de livros e artes plásticas. Tanto querendo valorizar a cultura do Hip Hop até batalha de grafite e de break, ainda pretendem fazer uma de DJ, mas o foco ainda são os versos improvisados.

A cidade está cheia das batalhas de rap que resistem e se expandem cada vez mais. As rodas ganham mais volume pelo grande número de espectadores, é possível ir a uma batalha de rap a cada dia da semana. Todo dia tem. Mas como a cidade que não dorme estaciona seus ônibus, seus trens e metrôs perto da meia-noite, as batalhas costumam acabar antes desse horário. O campeão leva seu troféu, a folhinha com o chaveamento da noite (papel com as chaves das batalhas travadas), e cada um pega seu caminho, esperando pelas próximas batalhas.