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Por Luis Enrique Barrero Edição #64

Elas no gramado

No país do futebol, a falta de investimento na modalidade feminina do esporte cria um cenário de incertezas

O futebol desde sua criação, é um esporte praticado predominantemente por homens, devido à origem do jogo, praticado inicialmente pela elite branca masculina inglesa. No entanto, uma ativista feminina de pseudônimo Nettie Honeyball foi a primeira a quebrar essa convenção com a criação do British Ladies Football Club, para promover a igualdade entre os sexos.

No Brasil, a modalidade feminina vem engatinhando a curtos passos. Contudo, a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) definiu que, a partir de 2019, as equipes devem “ter uma equipe principal feminina ou associar-se a um clube que a tenha” para poderem participar do campeonato Taça Libertadores da América.

O São Paulo Futebol Clube se uniu ao clube da Prefeitura de São Paulo, a Associação Desportiva Centro Olímpico, para atender às novas regras. Com isso, conquistou o Campeonato Paulista, o Brasileiro e a Libertadores sub-17 em 2017. Na equipe, constavam atletas do Centro Olímpico e seis associadas da sede social do clube tricolor. “O São Paulo, no Brasil, é o melhor centro que tem de formação de base da modalidade do futebol feminino. Não é um trabalho tão antigo, mas que, comparado ao resto do Brasil, já está mais consolidado”, afirma Thiago Viana, técnico do futebol feminino são-paulino.

Da mesma forma, o Centro Olímpico é um exemplo de investimento na modalidade. Criado em 1976, inicialmente buscava trabalhar na formação de atletas desde as categorias de base para torná-los profissionais. Porém, com a pouca visibilidade dada às mulheres dentro do esporte, a instituição passou a ser referência no País ao financiar as práticas desportivas para o sexo feminino. “A gente inicia com uma categoria sub-11 e vai até a sub-17. Entram meninas a partir de 9 anos, preparamos elas até os 17, e depois elas acabam sendo indicadas pelo clube, ou até mesmo sendo chamadas por outros grandes clubes do Brasil ou de fora para integrar o profissional. E é a Prefeitura que ajuda com uniformes, transporte e campeonatos”, explica a auxiliar técnica do Centro Olímpico, Thaís Cavalcante, que destaca que o diferencial da instituição é a exclusividade do trabalho com o futebol feminino, não incluindo o masculino.

As peneiras para a seleção de atletas do Centro Olímpico ocorrem todos os meses. Letícia Cristine, de 14 anos, jogadora sub-15 do Centro Olímpico, estava em uma delas. “Eu ouvi falar do trabalho do clube, meus pais se interessaram e me inscreveram. Passei na peneira e estou aqui faz umas quatro semanas. É meu sonho ser jogadora profissional e defender a Seleção Brasileira. Mas não é um sonho só meu, todas as meninas aqui sonham com isso”, relata.

O Corinthians é outro exemplo. Após uma parceria com o Grêmio Osasco Audax, a equipe alvinegra passou a ter gestão própria na modalidade. Para a meia-atacante Gabi Zanotti, o clube possui uma grande estrutura e praticamente tudo que o masculino tem, apesar da pouca visibilidade. O Palmeiras, por sua vez, é o único clube dos grandes paulistas que não tem uma equipe feminina. Porém, Leila Pereira, presidente da Crefisa, patrocinadora do time, declarou em entrevista ao site Torcedores.com que o Verdão terá um time formado apenas por mulheres.

Um exemplo de superação dentro do esporte, como lembra em publicação feita no site The Players Tribune, é de quando Marta Vieira da Silva, jogadora eleita cinco vezes a melhor do mundo pela Federação Internacional de Futebol (Fifa), foi impedida de jogar um torneio juvenil apenas por ser garota e não teve apoio da equipe. Segundo Thiago Viana, esse preconceito acaba sendo enraizado no Brasil, por ser um País machista.

Julia Abou, ex-jogadora do São Paulo, destaca ainda que a opressão às mulheres no futebol vem desde cedo. “Quando pequena, não via os comentários como maldade, mas hoje percebo que eram reflexo de uma construção social frente aos estereótipos de gênero. Sempre que ia jogar com meninos que não me conheciam, eu era a última a ser escolhida”, comenta.

Em um país como o Brasil, as mulheres ainda tem uma longa jornada a enfrentar para serem reconhecidas no esporte mais popular do mundo. Talvez a medida tomada pela Conmebol seja um passo para a exigência da modalidade. “Já que por boa vontade não acontece, acho que essa solução da entidade é um bom caminho para valorizar o futebol feminino no Brasil”, opina a jogadora Gabi Zanotti.