REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Guilherme Goya e Ji Choi Edição #64

O Oriente também é aqui

A militância asiática começa a se unir no Brasil e ganhar força com o intuito de debater as microagressões sofridas e compartilhar suas vivências

Tinha que ser asiático” e “sempre quis pegar uma japa”. São comentários que amarelos   escutam diariamente. Pela questão histórica, geográfica e política, um asiático-brasileiro é tratado de maneira diferente de um brasileiro com ascendência europeia. Os amarelos, que formam 2% da população de acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, são vistos pelo senso comum como estrangeiros que possuem dificuldade de falar português, com sotaques fortes e costumes exóticos.

Com a disseminação das informações pela internet, a militância asiática começou a ganhar força. Nas plataformas digitais, os ativistas da causa conseguiram um meio para visibilizar suas lutas. “As minhas artes são formas de desabafo das minhas angústias”, relata o ilustrador e tatuador Eric Han. O movimento é recente no Brasil e se inspira na militância asiático-americana que está mais consolidada. Exemplo disso é a Wong Fu Productions, canal no YouTube com mais de três milhões de inscritos, que existe há mais de 15 anos e retrata vivências dos asiáticos nos Estados Unidos. É uma referência para canais brasileiros como o semelhante Yo Ban Boo, que conta com quase 50 mil inscritos.

As microagressões, como apelidos e piadas, aparecem, principalmente, na infância dos descendentes de asiáticos. É comum que os amarelos sejam colocados dentro de “caixas” durante a fase escolar, pelo estereótipo de estudioso, calmo e bom aluno. Han relata que, quando criança, não entendia porque ele e seus familiares eram chamados de “japas”, sendo que são descendentes de coreanos. “Precisamos tomar cuidado com o que falamos para as crianças, pois isso impacta muito”, afirma o ilustrador. Para ele, esse tipo de fala na infância pode acabar moldando o comportamento da criança para a vida toda e é a pior parte das microagressões sofridas.

Pequenas ofensas na infância colocam amarelos em conflito com a própria identidade
Eric Han

Pensando nisso, de março a maio de 2017, o ilustrador desenvolveu e compartilhou em sua página no Facebook a série de tirinhas Criança Amarela, em que retratava suas reflexões acerca das microagressões que ele e muitos outros amarelos sofrem. As tirinhas serviam como uma espécie de desabafo. Entretanto elas tiveram grande repercussão dentro da comunidade asiático-brasileira, devido à identificação de muitos com as situações retratadas.

Mas as microagressões não acontecem apenas na infância. “Historicamente, fetichização da mulher asiática vem principalmente da Guerra do Vietnã. Ao invadir um território, o branco quer conquistá-lo e com as mulheres isso ocorria por estupro”, afirma a estudante de Ciências Sociais e colaboradora dos blogs Outra Coluna e Perigo Amarelo, Gabriela Shimabuko. Ou seja, uma mulher asiática precisava se rebaixar ao homem branco para sobreviver. Além disso, a mídia japonesa dissemina os desenhos de animE, feitos por homens, que trazem a imagem infantil e sexualizada da garota japonesa. A questão da sexualização das mulheres orientais pode ser comprovada com a indústria pornográfica japonesa que, segundo reportagem da Agência Efe, possui um faturamento de 4,4 bilhões de dólares por ano.

O homem asiático, por sua vez, é visto como calmo e assexuado, característica reforçada pela piada do pênis pequeno. Nos filmes de Hollywood, por exemplo, os personagens asiáticos são, na maioria das vezes, secundários ou aparecem em grupos de nerds.

Com a maior disseminação de experiências contadas pelos asiáticos, ocorre uma união contra atitudes preconceituosas. Grupos da militância, coletivos feministas e LGBT asiáticos mostram como a união é essencial para o fortalecimento da minoria, fazendo com que o mundo possa enxergar que esses “japinhas” não são objetos sexuais a serem fetichizados e nem gênios anti-sociais.