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Por Amanda Prado Edição #64

Utopia possível?

Novas propostas, ideias e ações mostram como é viável alcançar uma cultura da paz

Um dos casos mais emblemáticos que substanciam a cultura da paz é o processo de Independência Indiana, em 1947.  Mahatma Gandhi, sem usar qualquer tipo de violência, lutou contra o sistema vigente em seu país. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o termo “cultura da paz” é definido como “a resolução não violenta de conflitos”. Ao contrário do que enuncia o senso comum, o estado pacífico não exclui o conflito. Viver imerso em uma cultura da paz significa conviver bem com o heterogêneo, agregar o diferente e, inclusive, discutir.

“É um conjunto de transformações necessárias e indispensáveis para que a paz seja o princípio governante”, define Feizi Milani, fundador do Instituto Nacional de Educação para a Paz e os Direitos Humanos (Inpaz). Essas transformações devem ocorrer tanto no nível do indivíduo quanto no das interações sociais mais amplas, como as relações governamentais e institucionais.

Formas invisíveis de violência também costumam habitar macropolíticas econômicas e sociais, como aplicar a noção de meritocria em países com enorme desigualdade social. O Brasil é um exemplo. Como forma de preencher algumas das lacunas causadas pela exclusão social, ONGs e núcleos assistencialistas assumem para si o papel de reerguer, ainda que pontualmente, a sociedade. Um exemplo disso é o Instituto Palas Athena, atuante em São Paulo e comprometido com uma educação que foque em soluções a longo prazo capazes de formar uma geração de pacifistas. O trabalho da instituição é baseado em pilares. Entre eles, a Justiça restaurativa.

O advogado Luís Bravo, educador e pesquisador em projetos de Justiça restaurativa no Centro do Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo (CDHEP), explica o conceito. “É uma proposta de alternativas ao sistema de Justiça punitivista”, comenta. Para ele, o atual sistema de justiça é paradoxal e perpetua mais violência, pois se baseia na ideia de que um mal deve ser compensado por outro. “Ao mesmo tempo que a gente priva uma pessoa de liberdade, esperamos que ela aprenda a se ressocializar”, opina o pesquisador.

O que essa alternativa de Justiça propõe é a restauração do que foi perdido em um crime ou conflito. Isto é, corresponsabilizar todas as partes e chegar em um acordo. O método parte do princípio de que os sofrimentos resultantes são causados pela quebra de uma ou mais necessidade humana, o que não implica apenas na reconciliação financeira, mas em uma reparação de significados. Isso pode ser feito por meio de um trabalho social ou acessando uma explicação para o acontecimento, por exemplo.

Na prática, o Instituto Palas Athena conta com o programa Gandhi e a Não-Violência, em parceria com a Fundação Casa, destinado à reabilitação de menores infratores no estado de São Paulo. Nele, instrutores voluntários oferecem cursos dentro do próprio Instituto e conversam uma vez por mês com 20 jovens mantidos dentro da Fundação.

O programa é dividido em três dias: no primeiro, são apresentados os princípios que nortearam o ativismo de Gandhi. No segundo dia, é encenado aos menores detentos o monólogo Gandhi, um líder servidor. E no terceiro, ocorre uma roda de conversas para que todas as dúvidas sejam sanadas. João Moris, um dos voluntários, conta que o objetivo do projeto não é julgar ou moralizar os participantes, e é essa a razão de Mahatma Gandhi ter sido a figura escolhida para a mensagem que se pretende transmitir. “A gente, sem dúvida, acredita nesta ferramenta que é a arte para despertar reflexão”, declara.

Além disso, a instituição realiza toda primeira terça-feira do mês o Fórum do Comitê da Cultura de Paz e Não Violência, que há 37 anos dissemina valores, princípios e metodologias de Gandhi. “A gente já teve muitos exemplos de jovens que ficaram tocados pelos depoimentos, mas não temos tempo hábil para criar um vínculo com eles, não só de confiança, mas um vínculo humano”, lamenta Moris.

Apesar de caminhar a passos lentos, para o fundador do Inpaz, as prospecções por uma cultura da paz estão diante de um cenário frutífero. Feizi Milani acredita que a humanidade desloca-se rumo a um estado de união e generosidade mútuas. Para ele, o medo do desconhecido é o principal fator que impede a mudança por um mundo melhor. “Uma coisa é perceber que o modelo atual é insuficiente e ultrapassado, outra é construir algo que ainda não foi tentado. O ser humano tem uma tendência a temer o desconhecido e ficar apegado ao habitual, mesmo que tenha certeza de que aquilo não serve mais”, afirma. “Ele [o corpo] se fundamenta no reconhecimento da interdependência e na prática da cooperação, então não existe vida se não houver o reconhecimento desses dois princípios fundamentais”.