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Por Nicola Ferreira Edição #64

O País que deixou de acelerar

Quais motivos levaram o Brasil deixar de ser uma grande potência automotiva para dar espaço a um lugar onde as grandes promessas são esquecidas?

O final da década de 1980 e o início da de 1990 foram cruciais para a explosão do automobilismo no Brasil. Os títulos de Ayrton Senna, Nelson Piquet e Emerson Fittipaldi foram responsáveis pela popularização do esporte no País. O último, por exemplo, foi pioneiro na criação de equipes nacionais ao formar a Escuderia Fittipaldi, a famosa Copersucar. A equipe era toda nacional, ficou presente por oito anos na Fórmula 1 (F1) e alcançou duas vezes o segundo lugar. No entanto, as últimas crises financeiras, somadas às más administrações das confederações nacionais e federações regionais, levaram a uma adversidade nunca vista antes. O Brasil é o sexto país com mais pilotos e o terceiro com mais títulos, mas é a primeira vez em 48 anos que não há um representante brasileiro na principal categoria do automobilismo mundial, a F1.

Para Sérgio Siverly, redator do portal Boteco F1, especializado na cobertura da modalidade, um dos principais problemas é a falta de vontade política e econômica de governos e empresas. “Se o menino quiser chegar na Fórmula 1, ele precisa sair do Brasil, ir à Europa ou aos Estados Unidos”, comenta. A falta de apoio ocorre, por exemplo, por parte das grandes fornecedoras, como Ford e Renault, que já patrocinaram as categorias de base nacionais. Para Reinaldo Rena, piloto do Campeonato Brasileiro de Endurance em que as provas têm mais de três horas de duração , o foco das categorias de maior visibilidade é o lucro, o que explica as pesadas taxas para participar da competição.

Outra questão levantada quando se fala da crise do automobilismo brasileiro é a administração da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA). “[Ela] deixou de apoiar, passou a cobrar altos valores de inscrição”, critica Rena. Para muitos, ela é uma das responsáveis pelo afastamento de investidores para a base. O editor do site Projeto Motor, Lucas Santochi, acredita nisso. “Existem muitos pontos que pesam. Porém, não tenho dúvida que o maior problema é a péssima administração da Confederação. E não estou falando apenas da atual ou da anterior, mas a das últimas décadas”, diz Santochi. A CBA foi procurada, mas não respondeu aos pedidos de entrevista de ESQUINAS.

O futuro do automobilismo no Brasil está ameaçado, porque não vejo perspectivas de incentivos governamentais voltados ao esporte a motor

Reinaldo Rena, piloto

Além das marcas, empresas do setor financeiro também abandonaram os projetos de incentivo a jovens pilotos. Antigamente, houve casos como o do Banco Nacional, grande patrocinador de Senna. Em 2015 e 2016, o Banco do Brasil apoiou Felipe Nasr na sua breve passagem pela F1. Raros são os pilotos que possuem todas as condições necessárias para alcançar o sucesso no esporte. Muitos precisam optar entre participar dos campeonatos ou ter um acompanhamento físico e psicológico. “Hoje em dia, o certo é sair do país para alcançar maiores objetivos”, afirma o atual campeão brasileiro de Kart na categoria Novatos, João Luís Pocay.

O caminho para o sonho é caro: o custo, segundo o programa Globo Esporte, da TV Globo, de um atleta no Kart nacional é de oito mil reais mensais para participar de um campeonato. A trajetória continua no Kart europeu, que chega ao 1,2 milhão de reais por ano. Em seguida, vem a Fórmula 4, com o mesmo custo do Kart internacional. Na GP3 ou na Fórmula 3, o valor atinge a casa dos quatro milhões de reais. Finalmente, a Fórmula 2 último passo antes da F1 demanda uma despesa de dez milhões de reais.

A morte de Ayrton Senna ainda deixa um triste legado entre fãs e competidores
Noiro Koike / Instituto Ayrton Senna

Problema além dos pilotos

As principais equipes brasileiras são apoiadas por pilotos já aposentados ou que ainda correm profissionalmente. É o caso da equipe Cesário Fórmula, comandada pelo ex-campeão da F3, Augusto Cesário, que busca, por meio de incentivo próprio, manter vivo o que já foi um dos principais esportes do Brasil. Essas equipes sofrem sem um patrocínio master e vão à falência em algum momento da carreira, problema comum também entre os campeonatos, que não sobrevivem sem o apoio de terceiros. O engenheiro mecânico José Roberto Baldassin, da equipe Cesário Fórmula, vê que a crise afeta o setor há muito tempo. “Com a falta de pilotos, as equipes precisam se adequar ao faturamento e se segurar como podem. A crise é um dos principais motivos da F3 estar parada e quase todas as equipes, fechadas”, revela.

Já as emissoras de televisão que transmitem o esporte sofrem com a queda na audiência. De acordo com o Ibope, o GP de estreia da temporada de F1 de 2018 exibido pela Rede Globo único canal da TV aberta responsável pela transmissão das corridas teve uma audiência de 4,4 pontos, valor muito abaixo dos 10,4 registrados dez anos atrás. Essa queda no público vai contra o movimento do resto do mundo. Segundo a Liberty Media, empresa que cuida da categoria, a F1 registrou um aumento de 6,2% de telespectadores em 2017 em relação aos números de 2016.

A falta de categorias de fórmula nacionais ou sul-americanas representam um grande atraso no desenvolvimento de pilotos em comparação ao Velho Continente. O piloto Reinaldo Rena acredita que a falta de categorias de base deixa os pilotos órfãos. “São nessas categorias em que o piloto começa a aprender como ajustar um carro em determinada pista. O bom piloto é aquele que entende o que está acontecendo com o carro”, explica. Para Lucas Santochi, é essencial o Brasil ter uma categoria como a Fórmula 4. Ele também acredita que a CBA deveria ser mais atuante em ajudar os campeonatos e as equipes a acharem patrocinadores. O engenheiro da Cesário, por sua vez, enxerga essas categorias como relevantes para revelar não apenas pilotos, mas também outros profissionais, como engenheiros, mecânicos, publicitários e preparadores físicos envolvidos no meio automobilístico.

O kart aparece como sinal de perspectiva para o futuro do esporte nacional
Cláudio Reis

As esperanças

Um dos poucos sinais de crença no automobilismo é no começo da carreira do atleta: o Kart. A categoria está recebendo um grande investimento da própria Confederação. A participação de mais de 500 pilotos no último torneio brasileiro de Kart mostra como as provas estão atraindo o interesse de um grande público. Para o jovem piloto João Luís Pocay, o kartismo está em um momento de destaque e isso ajuda na manutenção do esporte no Brasil, já que aparecem mais investidores que mantêm vivos os campeonatos.

Um dos principais movimentos que ocorrem no automobilismo de base é a chegada gradual de mais pilotas. A exemplo, menciona-se o Campeonato Brasileiro de Kart que, em 2018, teve cinco mulheres competindo número baixo se comparado ao total de 500 pilotos, mas cinco vezes maior que em campeonatos anteriores.

Essas competidoras são influenciadas por outras pilotas, como a norte-americana Danica Patrick, a primeira a ganhar uma corrida da Fórmula Indy em um circuito fechado; a britânica Susie Wolff, ex-pilota e atual diretora da equipe Venturi da Fórmula E; e Bia Figueiredo, brasileira que correu na Indy entre 2010 e 2011, hoje é a única mulher no grid de 34 carros da Stock Car, a principal categoria do esporte no Brasil. Fora do País, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) procura colocar mais mulheres nas principais categorias de várias formas. A tentativa mais recente foi a criação da W Series, campeonato exclusivo para mulheres. Para os organizadores, essa nova competição quebrará a barreira criada pelos patrocinadores em relação a pilotas. Enquanto a FIA busca apoiar a igualdade de gênero, no Brasil, ainda há um buraco nesse quesito e na questão do apoio do Estado para uma melhora no esporte.

“O futuro do automobilismo no Brasil está ameaçado, porque não vejo perspectivas de incentivos governamentais voltados ao esporte a motor”, afirma Reinaldo Rena. Sérgio Siverly, por sua vez, acredita que o esporte só será novamente valorizado quando o país focar na importância tecnológica do automobilismo para os carros urbanos, e José Roberto crê que a diminuição nos preços de peças para os carros iria ajudar na manutenção brasileiro como um país importante no meio automobilístico. Os três acreditam no potencial do Brasil como um exportador de pilotos de alto nível. No entanto, todos confirmam o mesmo temor de que a falta de investimentos acabe com a carreira de grandes promessas do automobilismo nacional e que a sina de importantes nomes no cenário mundial continue por bastante tempo.