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Por Gregory Prudenciano Edição #61

A prova do líder

João Doria transformou o dia a dia da Prefeitura de São Paulo num enorme reality show

Pare e pense: quem foi o vencedor da décima primeira edição do Big Brother Brasil? Praticamente impossível lembrar, é verdade. O reality show mais famoso do País é também o mais longevo – a 17ª temporada foi ao ar este ano [em 2017] –, de forma que é bem improvável que um cidadão comum não seja atingido por algum conteúdo ligado ao programa, o que se deve também à sua robusta audiência.

Mas se os brasileiros perderam o entretenimento orwelliano no ano passado, ainda em janeiro ganharam um outro reality: a gestão acelerada do prefeito tucano João Doria, ou JoãoTrabalhador para os mais íntimos. Deixando de lado a comunicação modorrenta típica da política paulistana, o “neotucano” imprimiu um ritmo alucinante à cobertura cotidiana da Prefeitura. Desde janeiro, são raros os dias em que Doria não tem o nome impresso na capa de um dos grandes jornais de São Paulo. A habilidade do prefeito para criar conteúdo viral por meio de sua página no Facebook com quase 2,8 milhões de seguidores, por exemplo, faz lembrar os diretores de programas como o BBB, que transformam picuinhas corriqueiras em vídeos de grande audiência.

João Doria, assim como o Big Brother, foi parar na boca do povo. Conquistando fãs e detratores, alcançou o objetivo de qualquer estrategista de comunicação: pautar das conversas de bar às grandes redações. A linguagem é direta, típica de youtuber; sempre olhando para a câmera, como quem conversa com o espectador, Doria aparece limpando avenidas com sua “inseparável” indumentária de gari, conversando com milionários no Oriente Médio, provocando – ou respondendo a provocações – petistas, fazendo visitas-surpresa a subprefeituras periféricas, jactando-se de começar a trabalhar cedo e de dormir tarde. Assim, cria a sensação de um “prefeito-zelador” onipresente, um herói da iniciativa privada contra a burocracia, o marasmo e a preguiça do funcionalismo público.

No entanto, por mais que se venda novidade, o “jeito Doria” de influenciar a opinião pública cheira à naftalina. O presidente norte-americano Franklin Roosevelt ganhou notoriedade com seus programas de rádio no estilo de quem conversa com a população – dar um google em “fireside chats” – no começo da década de 1930, prática que se espalhou pelo mundo. A narrativa do homem do povo que venceu por mérito próprio e que tem no trabalho seu valor principal faz eco a figuras históricas do populismo brasileiro. Antes de haver em Doria um pouco de Trump, há nele um pouco de Jânio Quadros, outro tanto de Getúlio Vargas e, pasme, até um pouco de Lula.

Lula, aliás, é importante demais para Doria. Em tempos de classe política desmoralizada, apresentar-se na mídia como legítimo herdeiro do antilulismo é um ativo político e tanto, ainda mais para quem sonha em ser residente no Palácio do Planalto. Doria aposta que o caminho mais curto para Brasília é trilhado pela rejeição à “política tradicional”. Nas eleições pós Lava-Jato, nada é mais eficientemente político do que se dizer não-político.

Ao escolher a internet como canal primordial de interlocução com os eleitores, João Doria feriu o ego do Quarto Poder. Se a estratégia é boa ou não, saberemos no futuro. O fato é que ficou a impressão de que Doria vive melhor sem a imprensa tradicional do que o contrário. Aí reside a maior semelhança entre o tucano e o presidente norte-americano Donald Trump: eles são uma bênção para uma imprensa ávida por audiência e vítima de modelo de negócios claudicante ao impulsionar acessos e venda de jornais e revistas. Apesar disso, o prefeito de São Paulo não demonstra ser suscetível às críticas tecidas pelos jornalistas. O mesmo não se pode dizer, no entanto, da opinião popular. Quando algo é mal visto por uma parcela importante da população, o tucano tende a ponderar, como quando reconheceu erros na cinzenta ação de apagar grafites pela cidade. “Reconhecer os próprios erros não é humildade, não. Reconhecer e aprender com os próprios erros, é ambição”. A frase talvez revele boa parte da estratégia de comunicação – e assim, da política – de João Doria. Não à toa, foi dita por Pedro Bial e não pelo alcaide.