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DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Lia Capecce Edição #61

Ancestralidade, luta e poesia

Protagonizado exclusivamente por mulheres negras, o Sarau das Pretas é uma experiência pulsante de arte e resistência

Casa cheia. Maioria negra: mulheres e crianças. As Pretas entram cantando seu hino, ao som do tambor: “Começou o Sarau das Pretas, dá licença, mulher preta vai falar”. Reforçando sua identidade dão início à apresentação. Dança, música e poesia – carregadas de muita reflexão – animam a noite. A apresentação durou quase duas horas, envolveu o público pelas vivências daquelas cinco mulheres que transformam suas experiências de vida em arte: o racismo, a dificuldade de ser mãe solo, a realidade da periferia e a falta de reconhecimento da literatura negra.

Numa cidade como São Paulo em que, atualmente, ocorrem mais de mil saraus, menos de 10 protagonizados por mulheres, o que torna o Sarau das Pretas ainda mais importante são as biografias de suas participantes. O grupo é formado por uma assistente social, uma atriz, uma jornalista, uma ex-recepcionista e uma jongueira. O projeto começou com um convite do Sesc Pompeia à escritora Débora Garcia, em março de 2016, para produzir um sarau exclusivo em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres. Garcia convidou outras quatro: as poetas Elizandra Souza e Thata Alves, atriz Jô Freitas e Taissol Ziggy, percussionista. Queria trazer diferentes linguagens para o sarau. “Nosso encontro não foi à toa”, afirma a escritora, que convidou outras mulheres antes da formação atual, mas nenhuma pôde participar. Hoje, ela pensa que deu sorte. “Tenho certeza que só teve continuidade porque foi com elas”.

Resgatando as mulheres negras que foram relegadas ao esquecimento na história do País – como, por exemplo, as autoras Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus -, as cinco artistas fizeram sua primeira apresentação no dia 12 de março de 2016 no Sesc Pompeia. Mais de 200 pessoas compareceram. O lugar ficou lotado. O retorno do público foi ótimo e elas foram muito questionadas sobre a próxima apresentação. Um ano e meio depois do que seria a única apresentação do Sarau das Pretas, o projeto continua vivo e crescendo.

Propondo reflexões sobre o feminino, a cultura e ancestralidade negra, o Sarau das Pretas trabalha com três linguagens: palavra, dança e música. A partir disso, as artistas escolhem as cores do figurino, criam os textos e desenvolvem a apresentação. “A gente também trabalha muito com a mitologia africana, a partir das cores, do batuque e do canto”, conta Freitas. O formato segue um padrão: momentos individuais intercalados com coletivos – no começo, meio e final – que geralmente são rodas de jongo, uma dança brasileira de origem africana praticada ao som de tambores, como o caxambu.

Além das unidades do Sesc, elas também se apresentam em centros culturais, como o Aparelha Luzia, um lugar simbólico de resistência de artistas negros no Campos Elíseos, na zona sul de São Paulo, e na Ação Educativa, na Vila Buarque, e escolas. Costumam ser convidadas, ainda, para fazerem shows em lançamentos de livros de autoras negras, como Conceição Evaristo e Noemia de Souza. É um trabalho remunerado. Desde o início, quando resolveram continuar com o projeto, o Sarau das Pretas busca não só um reconhecimento artístico, mas financeiro também. “Quando você começa a fazer uma militância, você quer fazer tudo de graça. Vai para qualquer lugar para levar sua ideia e tira dinheiro do próprio bolso para fazer isso. Eu já fiz muito isso e ainda faço”, conta Garcia. “Hoje eu entendo que saber cobrar um cachê justo pelo seu trabalho também é uma forma de militância”.

Mas isso não quer dizer que elas deixaram de fazer a arte de graça. “Também nos apresentamos pela troca e pela parceira. Gostamos de fortalecer um trabalho em que a gente acredita”. As artistas procuram sempre trazer o formato circular para as apresentações, reafirmando a horizontalidade entre elas e com o público, que é convidado a participar do microfone aberto no decorrer da apresentação – geralmente no meio dela.

 

O show é delas, mas o microfone é livre

Quando o microfone é aberto, todo mundo pode participar. O sarau é um espaço democrático – não importa o gênero, a idade nem a etnia. “O nome Sarau das Pretas é para marcar a nossa identidade e a temática com que a gente trabalha. Nós falamos do protagonismo das mulheres negras, mas todos são bem-vindos”, explica Débora Garcia. Mas é preciso usar esse espaço com responsabilidade e entender que o microfone é aberto, mas o espaço de fala é feminino. Os homens podem falar, mas precisam ter consciência de que não é o lugar de fala deles e que podem ser corrigidos. Muitos participam, mas a maioria é feminina.

“Quando você recita um poema, você sente a identificação no olhar do público”, afirma Souza. Segundo ela, muita gente diz como foi importante usar aquele espaço para se expressar e é com esses exemplos positivos que elas se fortalecem. “Quando mostramos que saímos da periferia e que passamos pelos mesmos problemas, elas entendem que também podem fazer arte”, conta Alves.

Em março de 2017, o Sarau das Pretas comemorou um ano. Organizaram uma grande festa para celebrar do jeito que o grupo merece: com amigos e com o público. Mais de 500 pessoas se reuniram no Aparelha Luzia. Apesar do dia de greve e paralisação no transporte público, o espaço ficou pequeno – muita gente ficou para fora e acompanhou o espetáculo da rua. “Foi um pocket de cada apresentação que a gente fez no ano passado. Também homenageamos as pessoas que colaboraram com a gente”, conta Garcia. Tássia Reis, uma importante voz feminina no rap, também se apresentou. Uma grande conquista do Sarau das Pretas, segundo a escritora, foi conseguir custear o evento.

“Ao longo do ano, concordamos que precisávamos ter um caixa para investir nas coisas que são importantes para a gente. Foi difícil, mas conseguimos”. Hoje, elas sabem que cresceram muito – e juntas – desde aquele primeiro convite. “Nós temos que assumir vários papéis dentro desse coletivo – pensar, criar, vender, atuar. Isso tem trazido uma maturidade muito grande para o grupo”, conta Garcia. “Quando completamos um ano, entendemos a força e o potencial desse projeto. Hoje a gente quer dar continuidade e se profissionalizar cada vez mais para aprimorar nosso trabalho. Estamos buscando uma formação intensiva de canto porque a gente canta muito no sarau, mas não somos cantoras. Queremos trabalhar mais isso”, afirma Garcia.