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DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Carolina Cotes e Isabella Câmara Edição #61

Mãe solteira, não!

Mulheres que criam seus filhos sozinhas relatam como lidam com a maternidade

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que 40,5% dos domicílios brasileiros são chefiadas apenas por mulheres. Isso equivale a aproximadamente 57 milhões de lares, conforme dados de 2015. Apesar de ser uma situação bastante comum e recorrente no País, que também pode refletir uma escolha da mulher, ser uma “mãe solo” ainda é um grande desafio para muitas brasileiras.

De acordo com Thaiz Leão, criadora da página do Facebook Mãe Solo, que faz quadrinhos sobre situações da maternidade, o que não falta é preconceito. A designer engravidou enquanto estava no terceiro ano da faculdade e, de início contou com o apoio do pai da criança, um amigo com quem mantinha uma relação casual. Mas logo o relacionamento acabou e o pai não manteve contato com seu filho. Leão lembra que encarou de cara o julgamento da sociedade. E ele vinha de todos os lados.

Uma das maiores dificuldades para a designer foi encontrar uma casa para morarem. Nesse ponto, a confiabilidade da mulher era colocada em cheque pelos corretores e proprietários. “Mesmo que eu tivesse dinheiro e cumprisse todos os requisitos da casa, tinha gente que me negava aluguel. ‘Já que não conseguiu segurar o marido, vai conseguir segurar a casa?’, era o que eles deveriam pensar”, conta Leão.

Letícia Carvalho, podóloga na zona leste de São Paulo, tem uma filha de dois anos, fruto de um relacionamento casual com um amigo. A criança viu o pai apenas duas vezes. Carvalho conta que as dificuldades enfrentadas para criar a filha sozinha contribuíram para o seu crescimento pessoal, mas tem receio de que, no futuro, sua filha possa sofrer com o abandono do pai. A podóloga ainda afirma ainda ter sido excluída na escola da filha. “Eu senti dificuldade em ser aceita pelo grupo de pais. Eles sempre me excluíam e a minha filha de qualquer confraternização fora do ambiente escolar. Nós nunca éramos chamadas em festinhas de amiguinhos, por exemplo”. A dificuldade em ser aceita não ficou somente no âmbito social.

O mercado de trabalho também é um problema para as mães solo. Marcela*, estudante de Enfermagem, foi obrigada a se afastar do pai de seu filho após sofrer uma série de ameaças. Quando começou a procurar um estágio, a estudante ouviu de diversas recrutadoras que a prioridade das empresas era contratar mulheres sem filhos. “Nunca é fácil, mas com as mães solo fica ainda mais difícil. Os patrões sabem que caso aconteça algum problema, nós seremos as únicas responsáveis”.

Thaiz Leão criou a “Mãe Solo” em maio de 2014, depois do nascimento de seu filho, Vicente. A página conta com mais de 70 mil curtidas.
Thaiz Leão Gouveia

O julgamento é uma das maiores barreiras que uma mãe solo pode enfrentar. O medo começou logo no início para Francine* que, por receio da reação da família, postergou a verdade. Sem saber quem era o pai da criança, a estudante de Odontologia contou para seus pais sobre a gravidez apenas quando estava completando sete meses de gestação. Mas, para sua surpresa, recebeu apoio.

Para a estudante, dói ver como o julgamento vem de todos, inclusive de outras mulheres, parentes e amigos. Umas das perguntas que Francine* mais ouvia de suas amigas eram “Onde está o pai da criança?” ou “Tão nova e já é mãe solteira?”. Perguntas aparentemente ingênuas, mas que se tornam incômodas e muito recorrentes.

Ser mãe não é um estado civil. O termo “mãe solo” define mulheres que, por opção ou não, criam seus filhos sozinhas.

Existem diversos estigmas nas mães que tem um filho, mas não são casadas ou não tem um companheiro. A imagem de uma mulher divorciada é um pouco menos impactante do que a de uma que teve um filho fora de uma relação. Na opinião de Thaiz Leão, essa diferença se deve pela instauração do divórcio na família tradicional. “Hoje é mais fácil de se lidar com uma mãe que já foi casada e agora está sozinha, do que com uma que teve um filho totalmente fora de uma relação ideal”, afirma.

Fernanda Texeira conta que os relacionamentos com homens também podem ser difíceis. Na maioria dos casos, na sua opinião, eles as subjugam e deixaram claro que estão “fazendo um favor” em se relacionar com elas, estabelecendo uma série de critérios para manter a relação. Para ela, outro fator que atrapalha o relacionamento de uma mãe solo é o imaginário dos homens. Muitos acreditam que por se relacionar com uma mãe se tornarão automaticamente pais da criança de sua nova companheira.

“Isso é muito usado contra a gente. Eles não conseguem separar maternidade, sexualidade e vida afetiva. É óbvio que ele terá contato com o meu filho, mas isso não significa que ele será o pai”, desabafa. Ela ainda revela que se relacionou com um colega de classe logo após a separação. Mas como esperado, a relação não foi duradora. O relacionamento era complicado e ele não mantinha nenhum compromisso sério, afirma. Com o passar do tempo, o rapaz revelou que não poderia manter uma relação com ela. O motivo? Novamente a maternidade. Teixeira conta que na época o novo parceiro confessou que não a apresentaria para os pais, pois ela era mãe.

 

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade das entrevistadas