REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Laís Franklin Edição #61

Identidade e apropriação

O uso do turbante como forma de preservação da luta negra

“Eu posso usar turbante?” Já ouvi variações dessas perguntas muitas vezes por mulheres e amigas brancas e confesso que nunca tive uma resposta pronta para isso. Eu, que sou mulher negra, tenho bem “escurecido” que turbante é muito mais do que uma tira de pano enrolada na cabeça e falar sobre ele levanta uma discussão que esbarra em questões de identidade que extrapolam o indivíduo.

Turbante é um símbolo cultural que não possui um único ponto de origem. Há dados históricos desse símbolo em várias religiões africanas e orientais. O problema está na cultura europeia dominante que dissemina seu uso apenas no quesito estético, reduzindo o turbante a um mero acessório de cabelo. Esse distanciamento simbólico é fruto de uma apropriação que deixa de lado o significado original dessa indumentária.

É preciso falar também sobre espaço. Usar um turbante no Brasil é diferente de usar em Bangladesh, e que também é diferente do Quênia. Cada lugar possui relações sociais específicas. Aqui, o turbante possui forte valor simbólico e ajuda a compor o imaginário da população negra. Ser negro e usar turbante no Brasil é um ato político. O turbante é pertencimento e faz uma ligação com as tradições africanas que, desde o começo da história desse País, foram massivamente repreendidos e marginalizados.

Em 2017, dois fatos fizeram reacender o debate de apropriação cultural no País. Muitos devem lembrar sobre o caso da Thauane Cordeiro, jovem branca curitibana que estava usando turbante no metrô e encontrou um grupo de meninas negras que se sentiu incomodado com o fato dela estar usando turbante. Thauane então tirou seu turbante e mostrou que era careca, que tinha câncer e, por isso, sentia-se representada pelo uso. Teve textão no Facebook com a #VaiTerBrancaDeTurbanteSim, teve um acúmulo de likes e compartilhamentos, exposição na mídia, nos jornais, nas revistas, nas rádios. Thauane, que é branca, virou notícia.

Dois meses depois, Dandara Tonantzin, que é negra, estava numa festa de formatura de Engenharia Civil em Uberlândia e foi hostilizada por outro jovem, branco, que arrancou seu turbante e o atirou no chão, enquanto jogava cerveja nela. Dandara também se incomodou com a situação: teve textão no Facebook, não tiveram tantos compartilhamentos, não houve tanta exposição, Dandara não foi notícia nos meios tradicionais de mídia. Thauane tirou seu próprio turbante. Dandara teve o seu arrancado. Thauane virou notícia, Dandara não.

Falar sobre turbante também é falar sobre racismo e apropriação cultural e falar sobre apropriação cultural não é falar sobre indivíduos, é falar sobre toda sociedade e suas questões estruturais. É falar sobre um objeto que carrega ancestralidade de gerações escravizadas. Turbante é um elo com a nossa ancestralidade. Turbante é resistência. Turbante não é apenas um acessório. Turbante é luta.