REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Isabela Guiduci, Maria Luisa Rodrigues e Rafael Fernandes Edição #61

Rainhas e reis

A nova geração de drags e a arte dos “kings” em cena

Em frente ao espelho, as estudantes de teatro e artes visuais Bruna Alves e Iara Dias se preparam para a transformação. As maquiagens estão dispostas na mesa de madeira. O primeiro passo é passar cola bastão ou acrilex e talco nas sobrancelhas com o objetivo de escondê-las. Logo depois, vem o uso de bases para uniformizar a pele. As sobrancelhas são redesenhadas. A próxima etapa é a que demanda mais tempo: maquiar os olhos. Segundo Alves, o olhar é a parte que mais chama atenção, por isso é tão importante para a “montação”. Com técnicas de alternância de lápis de tons mais claros e escuros da pele, vão remodelando o formato do nariz e do rosto, deixando os traços mais exagerados, que são tão característicos do movimento.

Depois de quatro horas de maquiagem, o cabelo é preso para dar lugar à peruca, o figurino da noite é colocado e a artista finalmente fica pronta para o show. Assim surge a drag queen Ginger Moon, vivida por Alves, e o drag king – ao contrário da queen, se veste de homem – Dom Valentim, criação de Dias. A arte drag se fundamenta justamente no exagero: o artista cria sua própria personagem e se monta com perucas chamativas, maquiagens fortes e roupas extravagantes. Tudo com muita cor e brilho. O intuito é trazer ao público uma figura que “brinque” com o estereótipo de um gênero, que pode ser o feminino ou o masculino. As drag queens se transformam unicamente para o momento da apresentação, diferente de transsexuais que se identificam com gênero feminino ou masculino.

A drag e cantora Glória Groove, que despontou na cena musical após ter participado do programa Amor & Sexo da Rede Globo, e lançou o disco O Proceder, conta que o reality show norte-americano Rupaul’s Drag Race, que promove uma competição entre as queens, foi responsável pela divulgação dessa arte, que antes era apenas conhecida pela comunidade LGBT. Mas alerta que o público precisa apoiar as artistas locais. “Drag é uma coisa que está aí há muito tempo ocultado, marginalizado, colocado nas sombras, como uma coisa que tem que ser vista apenas a noite. E agora, de repente, é legal ser drag. Isso é bom. Mas vamos valorizar as coisas que estavam acontecendo e apoiar quem está fazendo aqui”.

Glória Groove também é Daniel Garcia, de 22 anos e diz que é “gay desde que me conheço por gente”. Criado só por mulheres, ele cresceu em um ambiente artístico, na companhia de sua mãe cantora e sua avó circense. Passou a trabalhar com atuação e música desde os seis anos de idade, mas, apesar de se interessar mais pelo canto, nunca se sentiu à vontade para desenvolver uma carreira solo, até conhecer a arte drag. “Pela primeira vez, eu vi em alguma vertente da arte a chance de me sentir realizado. Eu não me sentia à vontade para fazer uma carreira como um cara, achava que a estética não tinha nada a ver comigo”, confessa.

Arte para todos

“Eu não sabia que mulher podia ser drag”, lembra Ginger. A jovem de 20 anos decidiu em 2015 se entregar a essa arte, mesmo que as mulheres ainda não sejam bem aceitas no mundo drag. O preconceito contra essas artistas que performam, para Ginger, vem do próprio machismo inserido na sociedade. “Mesmo no meio LGBT existe muita misoginia, mas é uma arte e arte é para todo mundo. Ser mulher no meio drag é difícil, sempre vai ter uma olhadinha de lado. Tem bastante drags antigas que não gostam, não aceitam. Mas drag não começou apenas com homens. Tem uma história muito grande por trás”.

O fenômeno surgiu nos Estados Unidos nos anos 1980, principalmente nos subúrbios, mas somente a partir de 1990 que a prática se popularizou, com os bailes da população LGBT, como é mostrado no documentário, de Jennie Livingston, Paris Is Burning (1990). As performances geralmente aconteciam em boates ou baladas e, atualmente, podem contar com apresentações de canto, dança ou até stand-up. No Brasil, a cena drag se destaca nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Na capital paulista, a boate Blue Space é considerada o grande palco das drags brasileiras, sendo que, desde 1996, promove shows de drag queen.

Ginger participa do grupo Riot Queens, um coletivo voltado para mulheres drag queens que existe há dois anos e tem como objetivo afirmar a presença delas na cena, e abraçar todas as mulheres que também sentem vontade de se montar e não sabem por onde começar.

Outro grupo que está crescendo é o dos drag kings, artistas que, assim como as drag queens focam no estereótipo de um gênero, mas dessa vez o masculino, usando da maquiagem para desenhar traços que caracterizem o homem, incluindo barba e o uso de ternos e chapéus. Iara Dias, o Dom Valentim, começou a se montar há um ano e contou com a ajuda de queens para entrar nesse mundo. “Eu fui ao Rio de Janeiro para encontrar alguns kings de lá, mas foi depois que eu conheci a galera drag de São Paulo que eu comecei a ir para festas montada”. O número de kings no Brasil e no mundo não é grande e, por isso, eles não recebem tanta visibilidade quanto as drags, “agora que está começando essa articulação. Tem muitos kings que começam totalmente perdidos porque não conhecem outros”.

O futuro das perfomaces parece um mistério, mesmo para as drags queens que fazem sucesso no momento como Glória Groove. “A gente fica insegura de pensar qual vai ser a receptividade. Não dá para saber. Gosto de acreditar que não acaba por aqui.” Mas demonstrando otimismo sobre o futuro do cenário drag, Glória avisa: “A gente tá brotando, viu? De tudo quanto é canto”.