REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Vanessa Nagayoshi Edição #61

Fora de compasso

Mercado de trabalho instável e corte de verbas públicas são desafios para quem quer seguir carreira de músico em São Paulo

Desde a infância, Camila Cardim não perdia um episódio de programas musicais de calouros na TV. Já muito cedo, aos sete anos, sonhava em ser cantora famosa e ficava fascinada quando ouvia os candidatos cantando músicas românticas como as de Whitney Houston, Celine Dion e Mariah Carey. Começou então a cantar por hobby, mas foi aos 14 anos que começou a investir em uma profissional.

Sem condições de pagar uma escola de música, Cardim iniciou seus estudos de canto no Projeto Guri Santa Marcelina, mantido pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, que oferece aulas gratuitas de música para crianças e adolescentes entre seis e 18 anos. Mais tarde, ela migrou para o Programa Vocacional, uma iniciativa pública da Prefeitura de São Paulo. Hoje, com 22 anos, Cardim estuda música por conta própria. “Estou estudando pelo YouTube e pelo Google. Tudo o que eu quero saber sobre teoria e, principalmente, a prática e a técnica vocal, procuro na internet”, conta. A interrupção dos estudos formais foi causada pelo congelamento de verbas anunciado pela Secretaria de Cultura, que afetou diversas esferas da cultura, dentre elas, a escola onde Camila Cardim estudava.

O Programa Vocacional não foi o único a sofrer corte de verbas, além da Prefeitura, o Governo do Estado também realizou contenções. No dia 09 de fevereiro de 2017, a Banda Sinfônica de São Paulo – única banda profissional civil do Brasil e considerada a melhor da América Latina – teve que suspender temporariamente suas atividades por falta de recursos. De acordo com a Lei Orçamentária de 2017, o orçamento da Secretaria da Cultura sofreu diminuição de quase 16%, o que resultou em uma série de suspensões de atividades artísticas. O regente titular e diretor artístico, Marcos Shirakawa, há 16 anos como trombonista da banda e há 7 anos como maestro, ressalta que apenas 0,4% do orçamento total do estado de São Paulo é destinado à cultura. Para ele, a decisão também teve um cunho político que reflete o déficit cultural que se tem no País, “o próprio secretário da Cultura, numa audiência da Assembleia Legislativa em que reivindicávamos a permanência da banda, justificou os cortes dizendo que já existiam muitas bandas no estado de São Paulo”.

Segundo a Lei Orçamentária Anual, até 2016 no Brasil a verba destinada à cultura era de dois bilhões trezentos e cinquenta mil reais (0,08% do orçamento total) e no Estado de São Paulo era de 823 milhões de reais (0,4% do orçamento total). A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo afirma que foram repassados 28 milhões de reais para a Banda Sinfônica e a Orquestra do Theatro São Pedro, após os cortes. Assim, o repasse sofreu queda de 73% no ano de 2016. Além dos cortes, 19 funcionários da Orquestra do Theatro São Pedro foram demitidos sob o argumento da crise econômica que acomete o País.

Por detrás da decisão de cortar o investimento da música por falta de verba atribuída à crise econômica do país, ainda há a falta do reconhecimento da cultura na formação do cidadão. Para a professora de canto e violinista, Luciana Hoerner, não se entende que a música faz parte do processo educativo. “A música ajuda a desenvolver diversas habilidades”, diz. Shirakawa também afirma que a educação musical deveria estar mais presente nas escolas regulares, para despertar o interesse de todos, e não apenas daqueles que querem seguir carreira na área.

O desafio da formação é potencializado pela dificuldade de ingressar no mercado de trabalho. Em São Paulo, há apenas três coros profissionais: o Coral Paulistano Mário de Andrade, o Coro Lírico Municipal de São Paulo e o Coro da OSESP e, ao todo, são 240 vagas. Marcelo Liborni, de 21 anos, faz faculdade particular de música na Faculdade das Américas e dá aula de canto. Ele afirma que entrou no mercado já ciente das dificuldades que enfrentaria, “Os professores nunca falaram que seria fácil, que eu sairia já com emprego garantido. E mesmo se saísse, não é um trabalho valorizado. Um músico ou dá aula ou se apresenta e não é sempre que você é chamado para cantar e também não é sempre que as pessoas querem ter aula”. O maestro Skirakaura espera que as novas gerações de músicos lutem por um cenário mais otimista.