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Por Luis Enrique Barrero Edição #63

A Rua Javari resiste

Diante de um cenário de elitização, o Juventus mantém suas raízes tradicionais bem firmes

Quinze horas em ponto de um sábado. Juventus contra Oeste pela última rodada do Campeonato Paulista de Futebol, da Série A2. O clube da Mooca acaba de garantir sua permanência na segunda divisão paulista, enquanto o Galo de Itápolis busca sua classificação para disputar o acesso à primeira divisão do próximo ano. Cerca de 1270 torcedores ocupam a tradicional Rua Javari para acompanhar o querido time do bairro. Bares cheios, arredores vestidos de grená e branco e muita animação antecedem a partida no Estádio Conde Rodolfo Crespi, que terminou com o placar de 1 a 2 para a equipe da capital. Porém, o resultado foi o menos importante no dia. “O mais legal de assistir a uma partida do Juventus não é ver o time jogar, mas sim encontrar amigos, família e passar uma tarde gostosa junto a pessoas que gostamos”, declara uma torcedora após o final do embate.

O Moleque Travesso, como é carinhosamente chamado pelos seus torcedores, ainda não chegou ao seu centenário, mas tem muita história para contar dos seus 94 anos de vida. Criado em 1924 com o nome de Cotonifício Rodolfo Crespi F.C., o Clube Atlético Juventus surge seis anos depois a partir da sugestão do Conde Rodolfo Crespi de criar um time como homenagem ao tradicional homônimo italiano, do qual era torcedor fanático.

O Juventus sempre foi o clube de coração da maioria dos moradores do bairro da Mooca, na região Leste de São Paulo
Luis Enrico Barrero

Influenciado pela colônia italiana que chegou em São Paulo no século XX para trabalhar nas indústrias e na produção cafeeira, o Juventus sempre foi o clube de coração da maioria dos moradores do bairro da Mooca, na região Leste de São Paulo, obtendo pouco destaque nacionalmente em torneios de futebol profissional. Talvez sua maior conquista, até hoje, tenha sido o título da Taça de Prata, de 1983, da Série B do Campeonato Brasileiro. Ainda assim, o clube é conhecido no Brasil principalmente pela sua tradição de manter as raízes italianas bem firmes no cenário de modernização e elitização do futebol. Para o torcedor juventino José Sérgio, de 76 anos, “o Juventus não acompanhou o desenvolvimento de outros clubes de origem italiana como o Palmeiras, por exemplo, especialmente na questão do dinheiro e do investimento de empresários após campanhas melhores de outros times”.

Caminhando pelo bairro da Mooca, é possível sentir um ambiente característico de interior paulista. Casas pequenas misturadas às ruas movimentadas pelo comércio, restaurantes que servem o melhor da culinária italiana, padarias exalando o cheiro de pão quente e pessoas sentadas nas calçadas tomando sol contribuem para criar um sentimento de pertencimento nos moradores da região. “Moro no bairro da Mooca desde que nasci. Meus pais sempre viveram aqui e para mim é tudo de bom, não tem coisa melhor. É o que eu conheço, se eu sair daqui eu vou me sentir meio perdido”, conta Sérgio Henrique , de 67 anos, comerciante que “respira” o bairro 24 horas por dia.

Assistir a um jogo no estádio da Rua Javari se tornou um dos inúmeros programas a serem feitos na cidade de São Paulo. Além das partidas, é costume experimentar as saborosas esfihas de carne do bairro e os deliciosos cannoli artesanais, doce frito enrolado em formato de tubo e recheado de creme de ricota.

Assistir a um jogo no estádio da Rua Javari se tornou um dos inúmeros programas a serem feitos na cidade de São Paulo
Luis Enrico Barrero

A proximidade dos jogadores com os torcedores impressiona. Ao final de cada jogo, os atletas saem dos vestiários e chegam perto dos fãs, algo impensável em jogos de grandes times. “Aqui no Juventus é como uma grande família. Há são-paulinos, corintianos, palmeirenses, mas todos se unem pelo Juventus. Você não vê briga”, celebra Sérgio Henrique. Os jogadores sentem esse clima de torcida. Todos moram nas redondezas e se sentem acolhidos pelos espectadores.

O Juventus é o que restou do “futebol raiz”, sem os adornos do futebol moderno das arenas e da politicagem que envolve o esporte. “Ódio eterno ao futebol moderno” é um lema bastante difundido entre os torcedores da Mooca. Resta saber se o clube sobreviverá ao impacto da modernização do futebol e voltará a brigar por grandes títulos no futuro. Contudo, uma coisa é certa: “a paixão juventina será sempre a mesma, de geração a geração”, como diz José Sérgio, esperançoso por dias melhores nos resultados em campo, mas orgulhoso do desempenho do time no coração dos juventinos.