REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Ailane Roma, Bruno de Lima e Monique Polerá Edição #63

Vitrine da devastação humana

Cracolândia escancara as disparidades do Centro da cidade mais rica da América Latina

Ao caminhar pela região ao redor da Estação da Luz, em São Paulo, ouvíamos a mesma frase da maioria das pessoas com quem conversávamos: “A Cracolândia está em todo lugar”. Bairro da região central, a Luz fica a apenas cinco quilômetros da Avenida Paulista, uma das maiores referências culturais e econômicas não só no Brasil, mas de toda a América Latina. A região de tráfico e uso de drogas nas ruas está em um dos bairros mais antigos da cidade, vizinho a ambientes protagonistas da vida artística paulistana, frequentados, sobretudo, por uma elite social e intelectual.

Fomos à Praça Júlio Prestes. O espanto tomou conta de nossos olhos com a cena que estava à nossa frente. Cerca de mil e duzentas pessoas se concentravam no pior pedaço de São Paulo que alguém pode imaginar. Para quem nunca havia visto pessoalmente a Cracolândia, a realidade é chocante. Tudo em frente à Estação Júlio Prestes da CPTM, num retângulo entre a praça, a Alameda Cleveland e a Rua Helvétia. Um clima inóspito, sete dias por semana, sem pausa para descanso.

Enquanto Tarsilas e Debrets estão expostos na Pinacoteca e ingressos para assistir uma orquestra de música clássica chegam a centenas de reais na Sala São Paulo, a realidade com a qual nos deparamos do lado de fora dessas ilhas culturais é o oposto disso. Da maior sala de música erudita da capital paulista, vemos cenas degradantes e desumanas que condicionam as pessoas que ali vivem. O grupo é a personificação da exclusão social e ver a imensa dimensão do lugar é devastador para qualquer um.

A história da Cracolândia teve início nos anos 1990, a partir da expropriação de hotéis e bares ligados ao tráfico de drogas da Luz por parte do poder público, que levou os antigos usuários e traficantes a ocuparem as ruas da região. Desde então, a área passou por oito operações diferentes, que no começo tinham o intuito de pôr fim, ou pelo menos amenizar, a realidade do local, mas não cumpriram seus objetivos iniciais. A Cracolândia é uma vitrine da miséria e da devastação humana.

Pensamos em desistir. Não pela situação, mas por não saber que era daquela forma, naquela proporção. A desconfiança está impregnada na Cracolândia. O medo da exposição faz com que todos sejam reclusos e indiferentes: dos usuários e guardas municipais aos comerciantes e transeuntes. A repressão não escolhe cor, classe ou cargo. O usuário teme ser rechaçado pela polícia seja lá por qual crime ele tenha cometido. A polícia teme ser repreendida pelo Comando Geral pelas declarações que ela concede. O comerciante tem medo por estar submisso àquele cenário.

Sintonia

Um funcionário da CPTM conversou conosco enquanto olhávamos para o caos à frente. Ele contou que os moradores da praça não costumam entrar na estação, somente para pedir ajuda a um ou outro passageiro. Porém, quando alguém realiza uma filmagem ou fotografia do lugar, há uma virada de fluxo na Cracolândia e cerca de cinquenta pessoas correm para pegar o aparelho de quem tentou expor o local. Fazer essa reportagem seria mais difícil do que imaginávamos. Já havíamos sido ameaçados pouco antes de conversar com o trabalhador enquanto tentávamos tirar fotos que representassem o nosso abalo com a cena que se perpetuava aos olhos. Um homem passou gritando: “Se vocês não guardarem a câmera agora, vamos estourar a câmera e vocês”. Gritos, acusações e hostilidade viriam após a simples pergunta: “Você pode nos contar a sua história?”. A alternativa era mudar a abordagem. Aquilo se tornou um exercício de sintonia, que começa com a oferta de um cigarro, um papo casual e, por fim, as intenções.

De acordo com a contagem da GCM, cerca de 1200 pessoas vivem no fluxo
Ailane Roma

Foi cedendo um cigarro que Caíque, também conhecido na região como Amendoim, aceitou conversar. A Praça Princesa Isabel, para onde parte dos usuários foi deslocada com a ação da Prefeitura em maio de 2017, a dois quarteirões de onde concentramos esta reportagem, estava cheia de moradores e transeuntes que aproveitavam o clima ameno para descansar. “Isso aqui é um inferno, sabia? Ninguém quer ficar aqui, não. Só que não tem jeito”, desabafa Amendoim. Ele não foi bem acolhido ao chegar à capital paulista na juventude. Logo na primeira semana, dormia em um albergue, onde teve o primeiro contato com as drogas. Tentou trabalhar como bartender. Ninguém o queria por perto porque usava tóxicos. Hoje, não lhe dão emprego por ser um dependente químico. Quando perguntamos se seria capaz de se recuperar caso recebesse algum tratamento, Amendoim riu. “Já passei por quinze internações. Sou quase um doutor”.

Era cada vez mais complicado. A visão de uma câmera fotográfica atiçava a rivalidade dos usuários. A alternativa restante foi procurar outras opiniões. No começo da noite, abordamos o inspetor Ivan. Os 56 anos de vida se manifestavam nos cabelos grisalhos. Numa conversa receptiva e quase informal, descobrimos detalhes sobre o dia a dia de quem vive e trabalha lá.

A Prefeitura de São Paulo possui os Atende, unidades de atendimento diário emergencial construídas em contêineres instalados na região da Luz, montadas para as pessoas em situação de rua dormirem em um primeiro momento quando procuram por ajuda e, posteriormente, fazerem parte dos programas assistenciais da Prefeitura. Conversamos com Cláudia, uma mulher que mora no Atende 3, e vimos como os benefícios prometidos pelo governo são uma das piores coisas já criadas. Os que vivem lá dormem em pequenos espaços sem circulação de ar.

Além do programa de moradia, existe uma Unidade de Recomeço na Rua Helvétia, propriedade do Governo do Estado, que possui projetos de higienização básica como banho e corte de cabelo, academia, cursos e palestras para a inclusão social.

Visitamos os dois locais. Enquanto entrar no Atende 2 foi a confirmação do que Cláudia compartilhou, a Unidade de Recomeço aparenta ser um local bem estruturado. Apenas alguns funcionários do local quiseram dar sua palavra. Saímos do prédio e procuramos outra pessoa para conversar. A segunda ameaça ecoou ao nosso redor. “Se eles não forem embora agora, vão levar tiro. Primeiro a loirinha, depois o cara”, alguém falou.

Não ficamos para ter certeza se isso aconteceria naquela manhã, mas voltamos à tarde com o apoio, uma quase escolta, da Guarda Civil Metropolitana (GCM). No meio de uma conversa, descobrimos que a nova gestão municipal e estadual pretendefazer outra ação como a de 2017. O inspetor Ivan alegou que o que ainda barra a situação é “a falta de lugar para enviar essas pessoas”.

Faxina

Acompanhamos uma das limpezas a convite da GCM. A Cracolândia tem um som: a alguns metros de distância, já é possível escutar o barulho de várias pessoas conversando simultaneamente. Há ainda a presença de música. No momento que chegamos, estava tocando funk e o ritmo continuou quando saímos. O cheiro também é forte. A Cracolândia parece ter vida própria.

A Prefeitura realiza três limpezas diárias: à meia-noite, às 10 horas e às 15 horas. Na Rua Helvétia, interditada nesses horários, a cena é degradante, o cheiro é insuportável e você não cansa de se questionar como alguém pode viver naquelas condições. Os moradores dali se acostumaram ao vai e vem dessas “faxinas”. Não é um processo rápido, podendo levar em torno de duas horas. Começa com a saída do fluxo, passa pela limpeza e pela triagem e termina com a volta do fluxo. A retirada é feita pelos assistentes sociais, que só têm a ajuda da GCM quando o usuário resiste em permanecer na praça. A limpeza começa em seguida. Enquanto funcionários da Prefeitura varrem o local, um caminhão de água passa por ali e finaliza com jatos de mangueira.

A droga apreendida em um dos três flagrantes efetuados pela polícia no dia da limpeza
Bruno de Lima

Ao mesmo tempo, os moradores aguardam na Rua Helvétia, considerada uma segunda casa, já que mudam de lugar a todo o momento e suas calçadas parecem nunca secar. Quando a limpeza da praça termina, a GCM começa uma operação de triagem, em que são feitas duas filas, uma masculina e outra feminina, que serão revistadas por pessoas do mesmo gênero. É nesse momento que a polícia busca drogas e dinheiro de tráfico. Se a pessoa não tiver nada, pode voltar para o fluxo na Praça Júlio Prestes. Caso contrário, ela será revistada separadamente. Vimos três prisões no dia. Duas mulheres e um homem. Ele resistiu. Ivan contou que a norma da Prefeitura é recolher todos os pertences, até mesmo cobertores. Porém, ele não faz isso. Não vê necessidade de piorar ainda mais a vida de quem mora ali.

A volta do fluxo traz o funk, os olhares perdidos para a vida e atentos ao redor, as fumaças, os cachorros e o nosso retorno para casa assustados com o que iríamos contar. “Nunca havia visto nada do que vi ali”, pensamos enquanto voltávamos para casa. Vimos enormes pedras de crack, tubos de cocaína e, pior, como a vida de quem está naquele cotidiano é cruel e sem perspectivas. Éramos três jornalistas em formação que tinham aprendido que o jornalismo é “a arte de sujar os sapatos”. Não imaginávamos que, cada vez que esses sapatos fossem atrás de uma boa reportagem, ela mudaria nossas vidas de alguma forma.