REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Thiago Bio Edição #63

Da invasão à imersão

Por meio de suas lentes, o fotógrafo Leonil Junior captura a religiosidade brasileira e ganha destaque no País e no exterior

Sentado no café do Instituto Moreira Salles (IMS), na Avenida Paulista, Leonil Junior espera. O jovem de cabelos cacheados e rebeldes, silhueta esguia, se distrai no celular para matar o tempo. “Sou bem ruim de fala”, avisa logo no começo da conversa. “Eu tinha uma professora de Semiótica que dizia que eu escrevia com a imagem, e não com o texto”. A verdade é que Junior, um jovem de apenas 22 anos, é um fotógrafo que roda o Brasil para capturar com a lente de sua câmera do “sagrado ao profano” nacional. Natural da cidade interiorana Joanópolis, a 120 quilômetros da capital paulista, ele cresceu “no mato, na roça”, como explica.

A infância na zona rural proporcionou aventuras e brincadeiras que envolviam a imaginação fértil do pequeno Leonil. “Tinha uma piscina em casa, mas eu não gostava de tomar banho nela. Queria aproveitar das águas dos rios de Joanópolis”, conta. Junior cresceu assim: teve muito contato com a natureza, a cultura popular local, as festas tradicionais do interior. Isso tudo, mal sabia, influenciaria seu trabalho anos mais tarde.

Certo dia, depois de muito insistir, a mãe resolveu dar uma câmera fotográfica quando o menino tinha oito anos. Era uma digital, capenga, o que conseguiram comprar. A partir daí, começou a fotografar a paisagem de onde vivia. Mas o clique que o fez perceber que queria fazer fotografia de verdade veio somente quando uma nova vizinha surgiu no bairro.

Giro

Claudia Alcovér se mudou em 2010 para a chácara ao lado de onde a família de Junior vivia, quando o garoto tinha ainda 13 anos. KK, como prefere ser chamada, era uma fotógrafa da vanguarda paulista. “Quando ela se aposentou, me passou tudo que sabia de fotografia”, revela agradecido o fotógrafo. Depois de várias conversas sobre o assunto pelo qual Leonil tinha tanta curiosidade, KK começou a ministrar um curso semanal na Casa da Cultura de Joanópolis, chamado “Oficina do Olhar”. Nele, o adolescente conheceu a fotografia documental, sendo essa a sua linguagem hoje.

“Leonil se mostrava sempre muito empenhado e, ao término do ano, aconselhei que ele procurasse uma faculdade de Fotografia”, lembra Cláudia Alcovér. Ele terminou o ensino médio e, com o auxílio da bolsa do Programa Universidade para Todos (Prouni), foi estudar no Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (Ceunsp), em Salto, a 160 quilômetros de sua cidade natal.

Ir para a graduação deu um giro na sua vida. Logo no primeiro dia de aula, havia uma entrevista com um professor da universidade. Filipe Salles, professor, cineasta, fotógrafo e o docente mais temido da instituição. A resposta de Salles após muito observar o que o jovem lhe mostrava: “Sua fotografia é espiritual, sabia?”. Leonil não esperava isso. Não tinha ideia do que ele estava falando. Para ele, eram simplesmente fotos de cultura popular brasileira. Surgiu então seu segundo mestre depois de KK, que o lapidou para o trabalho fotográfico.

Procissão

Com as sugestões de Salles, dedicou-se a buscar mais lugares e devoções pelo Brasil. Em 2014, viajou para o Vale do Jequitinhonha, ao norte do estado de Minas Gerais. Aos 17 anos, Alê do Rosário, colega e especialista em congadas e outras manifestações culturais do Vale, convidou-o para conhecer o Festivale, um evento de culturas populares da região. A paixão pela fotografia de Junior só crescia e o entendimento de que ela é uma ferramenta de mudança social, também.

Começou a rodar o Brasil, de Norte a Sul. A convite do amigo também fotógrafo, Guy Veloso, foi registrar o Círio de Nazaré, no Belém, manifestação católica na capital paraense que acontece anualmente no segundo domingo de outubro. Para fotografar o Círio, foi para o meio da multidão, próximo à corda da procissão. Ele queria ficar do lado daquele povo, participar com eles, imerso. “Na primeira vez, ele foi para o local mais difícil de fotografar, que é a corda, onde dez mil pessoas se acotovelam para conseguir na mesma linha de cerca de 400 metros. Ele se arriscou em algo que só fotógrafo experiente faz”, conta Veloso, ainda impressionado com a ousadia do jovem.

Em 2015, foi aberto um edital da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, em Alto Paraíso de Goiás, para selecionar dois fotógrafos brasileiros para visitar uma aldeia multiétnica local. Escolhido, Junior viajou até o Centro-Oeste brasileiro, onde a relação com os indígenas se aprofundou. Os habitantes dali acreditavam que a sua câmera fotográfica capturava a alma dos indivíduos. O fotógrafo via essa alma como uma essência, que só se apreende estando lado a lado. “Você tem que estar imerso realmente. Já fui fotografar, por exemplo, a Jurema Sagrada [uma tradição mágica religiosa nordestina]. Lá, tomei a bebida que vem de uma árvore de mesmo nome, participei da roda de dança e fiz as fotos”, conta. A imersão, na sua visão, diminui a noção de invasão que a câmera fotográfica carrega.

O jovem fotógrafo usa somente lentes grande-angulares para fotografar a curtas distâncias. Ele lembra uma das mais célebres frases atribuídas a Robert Capa, húngaro famoso pelas suas fotos de guerra no início do século XX: “Se as suas fotografias não estão boas o suficiente, você não está perto o suficiente”. Essa é uma ideia que leva como rumo da vida profissional. Ele tenta se colocar no lugar do outro, porque acredita que a fotografia não é exclusiva do fotógrafo.

Uma das fotos mais conhecidas de seu trabalho é a do Preto Velho. Foi ela que deu ao jovem fotógrafo projeção internacional. Ele conta que, quando alguém para em frente a essa fotografia em uma exposição sua, a pessoa chora, sem saber ao certo o porquê. O motivo, ele acredita, é a fé que a imagem – assim como tantas outras de sua autoria – transmite. Uma pessoa viu a foto e a partir daí “o trem desencadeou de um jeito que assim… Quando eu vi, falei ‘meu Deus, estou em Londres’”, lembra Junior. Três meses fora do Brasil, levaram-no a Inglaterra e Bélgica, onde expôs seus trabalhos, e ao Marrocos, onde foi fotografar.

O menino crescido na roça, do “interior do interior de São Paulo”, estava no exterior. No segundo semestre de 2018, o “Brasil: do Sagrado ao Profano” passará pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e pelo Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza. Ao lado da família e amigos, Leonil Junior caminha para se tornar um fotógrafo melhor a cada imersão em alguma manifestação cultural e de fé. Seus próximos passos serão capazes de revelar um Brasil praticamente esquecido aos olhos da maioria de nós.