REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Larissa Albuquerque Edição #63

Sala de aula na berlinda

O contrabando de narcóticos nas escolas públicas se apresenta como um dos maiores desafios para o Estado de São Paulo

O tráfico de drogas vem se expandindo cada vez mais no Brasil. De 2015 para 2016, foram mais de cinco mil pessoas encarceradas por crimes ligados a drogas, segundo dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen). Toda a criminalização e violência causada por essa questão atinge também os ambientes de ensino, que deveriam ser um lugar seguro de aprendizagem. Uma pesquisa de 2015 do portal educacional QEdu mostra que o tráfico dentro das escolas públicas atinge 35% do total de escolas no Brasil e, em São Paulo, tem um dos maiores índices do País, na casa dos 47%.

A relação entre estudantes e traficantes é ocasionada pela ausência de políticas públicas mais bem definidas por parte do Governo Estadual de São Paulo. O sistema educacional oferecido a jovens e professores pelo Governo está sucateado e não trata os casos como deveria tratar.

As drogas entram nas escolas com ajuda dos próprios alunos. Segundo professores e estudantes de uma escola estadual do bairro Jardim Paraíso, na região periférica de Guarulhos, o consumo e o tráfico começam na oitava série, mas se concentram no Ensino Médio. As quadras e os arredores são os locais preferidos para as atividades de compra e venda. O professor de Educação Física da escola comenta que as drogas entram pelo vão da quadra e por buracos nas paredes feitos pelos alunos, usuários e traficantes. “Os que trazem as drogas para dentro da escola não respeitam nem mesmo os horários das aulas. Costumavam usar a quadra enquanto a aula acontecia, grupinhos se juntavam e até pessoas de fora da escola entravam na minha aula para usar as drogas”, relata.

A quadra, dentro do ambiente escolar, é o principal local para a venda e consumo de narcóticos
Larissa Albuquerque

Depois de muita conversa por parte dos professores, os alunos começaram a respeitar o ambiente da aula. A coordenadora da mesma escola apreende alguns “kits ilícitos”, que contêm cigarros de maconha, biqueiras e isqueiros, mas não possui estrutura nem poder para acabar de vez com os casos. “Tirar dos alunos as drogas não faz com que eles não as consumam e tragam mais no dia seguinte”, afirma.

Docentes, alunos não usuários e funcionários vivem na berlinda dentro desse esquema. Os incomodados não costumam denunciar, já que podem se comprometer perante ao tráfico no bairro e, paralelamente, afetar também a precária segurança da escola e da comunidade em que se encontram. A falta de segurança policial dificulta a postura de quem quer combater esse problema. Professores e alunos da escola relatam que não se sentem seguros naquele ambiente, não só pela ausência da polícia, mas também pela postura dela diante do tráfico. Em vez de trazer conforto e o sentimento de segurança, gera mais medo. Na visão dos alunos, o policiamento é agressivo. Episódios como a explosão de bombas após uma denúncia ou uma tentativa de interferir no tráfico de drogas já ocorreram no colégio guarulhense.

Problemas no ensino municipal

Em fevereiro de 2018, foi publicada a Lei municipal 16.867, que sanciona o projeto de prevenção ao uso de drogas nas escolas paulistanas. O Programa do Grupo de Educação e Prevenção às Drogas (Gepad) do estado de São Paulo promove a capacitação de docentes para lidar com questões de uso e tráfico dentro das instituições de ensino. Palestras também foram realizadas para a orientação dos docentes, pais, alunos e da Guarda Civil Metropolitana (GCM), para integrar o policiamento e a comunidade em geral. Apesar da lei ter entrado em vigor na data de sua publicação, dezesseis dos vinte professores da escola de Guarulhos retratada dizem que ainda sentem falta de uma preparação adequada para lidar com essa questão. Ao perceber uma situação de tráfico dentro da escola ou da sala de aula, muitos não sabem como reagir.

Iniciativas como a da Escola Municipal Darcy Ribeiro, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, ainda são escassas para se lidar com o tráfico dentro das instituições de ensino. Diego Mahfouz, diretor do colégio, fez um grande trabalho em seu cargo que lhe rendeu uma indicação ao Global Teacher Prize de 2018, o maior prêmio de educação do planeta. A Darcy Ribeiro era uma escola muito violenta antes da chegada de Mahfouz. Era comum presenciar alunos portando armas, as salas de aula pichadas e até incendiadas. No seu primeiro dia no cargo, ele foi recebido com atitudes agressivas e intimidadoras: jogaram água, frutas e lixo no diretor, além de colocarem fogo no banheiro. A partir do momento que ele disse aos alunos que ele estava ali para escutá-los, tudo mudou.

Pelos buracos no muro, os traficantes passam os químicos que serão vendidos aos alunos
Larissa Albuquerque

Mahfouz abriu espaço para os estudantes, pais, e para a comunidade. Promoveu um trabalho de reforma da escola. Criou uma praça de leitura para incentivar a aprendizagem e o debate de livros no colégio, acompanhados pedagogicamente pelos professores ou pelo próprio diretor. As mudanças implementadas diminuíram a evasão escolar, incrementando apresentações de dança, música e teatro, com o projeto “Praça da Casa”, com participação de estudantes, pais e funcionários da Darcy Ribeiro.

Em brigas, o diretor se senta com os alunos e media uma conversa para entender o problema. A estratégia de ouvir acima de tudo o aluno foi crucial. Antes de dar alguma advertência ou suspensão, Mahfouz incentiva o diálogo. Essas medidas a favor do bem-estar do aluno reverteram o quadro de violência e criminalidade dentro da Darcy Ribeiro. A escola, que era considerada uma das piores de Ribeirão Preto, agora é sentimento de orgulho para a comunidade ao redor dela. Serve de exemplo para outras escolas do estado de São Paulo e do País.

Acima da questão da segurança pública, está a questão da educação pública. A repressão feita pelo policiamento não resolverá tal dificuldade, mas só uma política eficaz no setor educacional que acolhe o aluno e o equipara a todos. Como foi exemplificado por Diego Mahfouz, é preciso integrar as aulas, os professores e a estrutura das escolas, oferecendo melhores materiais, laboratórios e bibliotecas. Além de envolver os alunos, a comunidade e a escola. Quando todos esses núcleos se sentem integrados, os sentimentos de compartilhamento e aprendizagem entram no ambiente escolar. Se isso partir não só do corpo docente, mas também de todo o poder público, a eficiência e abrangência serão maiores ainda.