REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Roberta Bernardo Edição #63

Crônica - Valéria e Odila

Rua Cerro Corá, eu nunca tinha passado por aqui. Heitor Penteado, cheiro de sanduíche. O ônibus à noite parece mais sujo, é a luz. Me distraio e quando percebo já estou na Consolação. A porta se abre e duas mulheres entram. Preciso parar aqui, rápido, para que não se crie a imagem de duas mulheres quaisquer, essas mulheres exigem uma definição detalhada para que possam ser vistas de maneira fiel.

Fascinantes, mas não pela beleza, já adianto que não eram bonitas. Odila e Valéria: mãe e filha, muito magras, elegantes sim, mas decadentes. Se eu fosse arriscar um rascunho, começaria pela forma de um S, eram extremamente corcundas. Odila, por volta de oitenta anos, cabelos brancos muito bem penteados, aquele tipo de cabelo curto e ondulado que se coloca firme no ar como a maré logo antes de arrebentar. Casaco escuro, de pele, talvez? Odila tinha o nariz pontudo, característica herdada por Valéria, eram parecidas. A filha beirava os cinquenta anos, cabelos lisos, grossos, castanhos e uma franjinha inadequada, se Françoise Hardy envelhecesse triste e paulistana, seria assim. Foi o que pensei quando nossos olhos se encontraram. Os olhos quase verdes contornados pela maquiagem escura, nada muito elaborado, lápis de olho. Rugas. Muito pequena, magra demais. Corcunda.

Veja bem, eu voltava do trabalho, não estava para caçar, mas aquela cara de bicho encurralado me intrigou. Subiram as duas no ônibus, Odila flutuando, impassível, Valéria atenta, me olhou bem nos olhos. Eu a vi. Ela não queria ser vista, mas eu a vi. Parecia mesmo a presa quando se dá conta de que uma vez percebida não tem mais jeito. Nesse momento tive certeza: essa mulher não está viva há muito tempo.

Ainda não foi suficiente, não consegui traduzi-las, por isso, segue um anexo que pode ajudar: hienas, como as hienas do filme do Rei Leão. Verde escuro. Piso da varanda da Casa das Rosas. Fim de domingo. Livro amarelado. Olhar de gente doente. Briófitas, as plantas que não têm irrigação e por isso ficam perto do chão: musgos. Casa de pedra com musgos. Flor murcha. Música triste e grave. Janelas abertas com vista para a noite (fria).

Duas mulheres. Entraram no ônibus, sentaram de costas para mim, não vi mais nada. Anotei no bloco de notas do celular: Valéria e Odila. Inventei dois nomes. As duas desceram na Avenida Paulista, dois pontos antes do meu. Desde então, não consigo parar de pensar nelas, tento descobrir como e por que esses dois fantasmas saíram pra passear, cheguei a três hipóteses:

1) Mãe e filha morreram na década de 1970 em acidente de carro, o irmão mais novo, na época criança, sobreviveu por um milagre e teve uma boa vida até que nessa noite, no auge de sua carreira como gerente administrativo de alguma multinacional, acabou tendo um infarto aos 60 anos. Valéria e Odila vieram busca-lo em seu apartamento no Jardins, de ônibus, porque têm trauma de carro.

2) Odila morreu primeiro por conta da idade, Valéria alguns anos depois, de câncer na laringe, mas por dividirem o mesmo mausoléu da família no Cemitério da Consolação acabaram por passar juntas a eternidade. Essa noite decidiram passear pela cidade, escolheram a Avenida Paulista como destino, por conta do agito, e foram de ônibus para ver a paisagem.

3) Valéria foi assassinada. Odila morreu alguns anos depois, e ao procurar pela filha no plano espiritual, não a encontrou e descobriu que Valéria andava ainda pela Terra assombrando a casa de seu assassino, a mãe desceu para convencer a filha a se libertar do desejo de vingança, mas acabou ficando por aqui. Hoje em dia assombram casas e passeiam pela cidade, se divertem interagindo com pessoas, fingindo que ainda estão vivas.

Não sei.