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Por Luca Castilho Edição #63

Esportistas na prorrogação

Atletas profissionais atuam por mais tempo por causa dos avanços na medicina esportiva

Em um passado não muito distante, um atleta era considerado veterano e estava próximo da aposentadoria aos 30 anos. Hoje, isso se alterou drasticamente e, com essa idade, o esportista ainda tem chances de atuar por mais tempo. Esse conceito não se limita ao futebol e atinge outras áreas, como o vôlei, basquete e tênis.

Aos 33 anos, LeBron James atua em alto nível e é considerado um dos melhores jogadores de basquete da história. Roger Federer segue imbatível no tênis no auge dos seus 36 anos. O goleiro Gianluigi Buffon mostra uma ótima forma, mesmo já tendo ultrapassado quatro décadas de vida. Kristin Armstrong conquistou a medalha de ouro no ciclismo da Olímpiada do Rio de Janeiro.

As novas tecnologias indicam a intensidade e quanto cada atleta se esforçou nos treinos e nos jogos. Uma das principais novidades é um aparelho de monitoramento em tempo real utilizado pelos atletas tanto nos treinamentos quanto a competição. Parecido com um sutiã, ele mede a frequência cardíaca do jogador, dados de GPS e até o potencial de arranque dos atletas. As informações são avaliadas pela comissão técnica e pela equipe de Fisiologia, que determinam um trabalho físico adequado para cada jogador e regulam a intensidade na preparação.

Criar um departamento fisiológico mostra a preocupação com a saúde e o desempenho dos atletas. São feitos exames periódicos que indicam diversas taxas dos jogadores, como o nível de cansaço muscular e a possibilidade de lesões. O centro pode até fazer um tratamento médico por meio de uma injeção de plasma enriquecido em plaquetas (PRP) no local da contusão para acelerar o processo de recuperação. Com todos esses artifícios, o setor é um dos novos pontos para prorrogar a aposentadoria de um atleta.

Comentando sobre o futebol e abrindo o leque para outros esportes, o coordenador de Fisiologia do Núcleo de Saúde e Performance do Palmeiras, Thiago Santi, afirma que é difícil conciliar uma vida desregrada e os maus hábitos ao alto nível de um atleta profissional. “À medida que ele enxerga que de fato os resultados são positivos, com pouca incidência de lesão, ele passa a ter mais confiança no trabalho fora de campo e nos profissionais que o preparam no dia a dia”, explica o coordenador.

O meia Zé Roberto se aposentou no final de 2017, aos 43 anos. Formou-se nas categorias de base da Portuguesa e passou por outros times brasileiros, como o Santos, Palmeiras e Flamengo, e por gigantes da Europa, como Bayern de Munique e Real Madrid. Ele começou a se preocupar com o corpo quando percebeu que esse era seu instrumento de trabalho. Então, passou a se alimentar, dormir e se cuidar melhor para sempre se manter em alto nível. “Você tem que estar sempre bem física e mentalmente”, diz o ex-jogador.

O jogador Zé Roberto atuou por diversos clubes brasileiros
Andes/César Muñoz

Altair Ramos, preparador físico e bicampeão mundial e da Libertadores com o São Paulo na década de 1990, fala sobre os maiores desafios físicos no basquete. “O desgaste [em especial, no joelho e no tornozelo] é muito grande nessa modalidade por conta dos muitos jogos em sequência”, explica. Torneios curtos exigem uma recuperação rápida do jogador, obrigando o envolvimento de diversos setores do clube como a nutrição, psicologia e o preparador físico.

Considerado um dos maiores jogadores de basquete de todos os tempos, Oscar Schmidt exalta os avanços. Ele acredita que é difícil alguém se aposentar por lesão atualmente. “Hoje, é mais fácil, as contusões são menores. Ninguém para de jogar por uma lesão. A medicina, os materiais e o sistema de treinamento foram aperfeiçoados”, diz Schmidt.

Já a maior pontuadora da história da Seleção Brasileira de Basquete Feminino, Hortência Marcari, revela como era quando treinava. “Na minha época, a preparação física era tratada separadamente. Hoje, a medicina, fisioterapia, fisiologia e a preparação andam juntas e ao mesmo tempo. Elas não são vistas para recuperar, e sim para prevenir”, comenta.

A jogadora Hortência é a maior pontuadora da história da seleção brasileira
Acervo/Gazeta Press

O “Mão Santa”, Schmidt, ainda fala sobre as consequências de atuar por tanto tempo. Quando chegou ao seu limite profissional, se aposentou. Agora, tem “dores em todos os locais que você imagina”. Mas não se arrepende: parar de jogar veio da sua própria vontade e no tempo que julgou melhor. Não foi uma limitação precoce de sua idade.