REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Raphaella Salomão Edição #62

Cartas na mesa

A vida das cartomantes e a leitura de tarô pela internet

Uma porta escura em meio à confusão da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, na altura do número 2094, exibe anúncios discretos de leitura de tarô e trabalhos espirituais. No topo da escada, descalça e de roupa branca, Regina da Silva, lojista de 58 anos, conta que realiza atendimentos desde os oito anos de idade, após ter a primeira visão quando a mãe estava alugando uma casa. Ela conta que havia uma senhora ao lado do proprietário. “Eu via nitidamente a mulher sorrindo para mim, mas ela já estava morta. O homem era viúvo”, recorda.

Dos degraus da entrada até a mesa branca, misturam-se inúmeras estatuetas, pedras, cartas ciganas, velas e búzios. Com um cigarro na mão, Silva explica que a leitura do baralho de tarô é uma relação de perguntas e respostas. Já os búzios trazem um sim ou um não. “Eu jogo os búzios e eles mandam um sinal que volta para mim. Não existem incertezas. A gente não mexe com destino. Destino é destino”, afirma.

A três quarteirões da Avenida Paulista, em um sobrado vermelho e gradeado na Rua Silvia, 411, atende outra cartomante, Tereza Stefano, dona de casa de 37 anos. Atrás de uma mesa repleta de imagens de santos de diversas religiões e cartas, em um quarto nos fundos da casa, ela conta que entendeu o seu “dom de sentir” pela primeira vez aos sete anos. “Ainda muito nova, no meio da rua, eu pressenti que precisava passar uma mensagem a uma pessoa completamente estranha que cruzou comigo. Fui tocada no meu coração que eu tinha que ajudar. Não lembro qual era a mensagem, mas lembro da situação em si. Então tudo fez sentido”, relata.

Stefano lembra que o próximo passo foi procurar orientação espiritual. A cartomante veio do Paraná e atende em casa há 20 anos, sempre em um processo de aperfeiçoamento e crescimento. Ela iniciou os atendimentos por causa de uma cobrança espiritual muito forte e uma necessidade de ajudar as pessoas. “É uma coisa minha, um dom que eu tenho, mas eu não vivo disso. As consultas não podem ser feitas de graça, porque o dinheiro também tem um símbolo na parte espiritual. Então eles pagam a minha força espiritual e com isso eu vou me renovando”, explica.

Ela menciona que apenas a primeira consulta é paga, e que o resto do acompanhamento — que pode durar meses, é totalmente gratuito. “As pessoas que precisam de benzimento, de alguma orientação ou trabalho mais forte, acabam vindo aqui uma vez por semana, então nós criamos uma relação de tratamento e ajuda. Eu costumo brincar que o meu trabalho é próximo ao de uma psicóloga espiritual”, completa. Sobre a procura às consultas, Stefano conta que antigamente o público que a procurava era em sua maioria o feminino. “Os homens eram receosos de vir até mim, mas hoje os atendimentos são bem mesclados nesse sentido”, diz.

Para outras cartomantes, o local de trabalho é a região central de São Paulo, no Viaduto do Chá. Mãe Dalva, de 60 anos, é uma delas. Ela veio de Cachoeira, na Bahia – uma região fortemente ligada ao candomblé e ao esoterismo, e atende no Viaduto há duas décadas. Dalva fez a primeira leitura aos 12 anos e hoje segue um ritual em suas consultas. “Para jogar os búzios e ler o tarô, é preciso pedir permissão para os orixás”, começa. Ela acende um charuto, se concentra, e assopra a fumaça sete vezes nas mãos do cliente: “é para limpar as energias”, explica. Trata inicialmente do nome e da numerologia por trás da data de nascimento, e depois embaralha as cartas. Separa os montes em cima da sua peneira e pergunta o que especificamente o consulente quer saber: cada um vai trazer as respostas para uma pergunta diferente. Com os búzios o processo é parecido. Ela se concentra, faz perguntas e em seguida joga. É sim ou não.

Do outro lado da mesa, procurando ajuda na leitura do tarô, Amanda Ribeiro, professora e empresária de 25 anos, conta que procurou uma cartomante pela primeira vez há dois anos. “Eu tinha um certo bloqueio quanto à cartomancia. Mas, precisava resolver questões importantes da minha vida”, diz. Ela procurou uma cartomante que atendia em uma loja de artigos religiosos em Catalão, Goiás, e, além das cartas, procurava informações sobre o passado: “Foi uma consulta conturbada. Ela disse coisas que mexeram muito comigo e outras que não fizeram nenhum sentido”. Apesar disso, Ribeiro conta que as consultas trouxeram resultados positivos: “As cartas não mentem, então por mais que seja alguma coisa negativa, você consegue enxergar aquilo de outra forma”.

O Tarô na internet

Roda da Fortuna. A carta do tarô que representa a reestruturação, uma revolução. Recriar e repensar uma relação também são expressões usadas para significar tal componente do baralho. A Roda da Fortuna é uma boa carta para ilustrar o momento atual das cartomantes, com a internet essas profissionais precisam se adaptar a novos tempos para não ficarem obsoletas.

Apesar de preferir os atendimentos presenciais, Stefano possui um site na internet. “Nós somos obrigados a nos atualizar, ou somos deixados para trás. As pessoas me procuram pelo site e também pelo WhatsApp. Como o meu trabalho é muito espiritual, não preciso que o cliente esteja aqui para eu ajudar, vou puxar a energia, a alma, os chakras”. Além disso, seu trabalho é divulgado em jornais, em cartazes, nas redes e, principalmente, no boca a boca. “Uma cliente conta para as amigas e eu já recebo mais 10 pessoas. E isso vai crescendo”, conta.

Leonardo Chioda é atualmente um dos especialistas do site Personare, portal voltado para o autoconhecimento e esoterismo. Ele defende que a internet facilita o trabalho de quem faz a leitura de tarô e resolve o problema da distância entre quem lê as cartas e que está interessado na leitura. “A partir de 2010, comecei a atender pela internet, via Skype. É uma ferramenta de extrema praticidade e comodidade”, comenta. Chioda atualmente mora em Veneza e possui consulentes em várias partes do Brasil, dos Estados Unidos e também da Europa. “Toda a minha agenda hoje em dia é baseada nos atendimentos virtuais. A praticidade que o mundo exige não descarta o mergulho que o tarô pressupõe em nós mesmos”, diz.

O cartomante despertou para o tarô ainda pequeno. “Meu interesse pelo tarô começou na infância porque uma amiga da minha avó materna vinha em casa ler as cartas para ela”, conta. Logo depois, na adolescência, ele se desafiou a compreender e a aplicar a sabedoria do tarô. “Comecei a atender em casa, anunciando no boca a boca, por um preço simbólico. Logo participei de diversas feiras esotéricas e nasceu o site Café Tarot, em 2006, em que escrevia minhas impressões e mostrava meus argumentos sobre os símbolos”. Com o tempo seus artigos ganharam espaço e visibilidade nas redes sociais da época, então o blog passou a ser seu laboratório para analogias entre o tarô e a literatura, o cinema e a cultura popular brasileira. “É importante relacionar essas cartas medievais com o que vivemos. É um espelho do que somos e fazemos”, diz.

Quando questionado sobre o “dom” vinculado à análise do tarô, Chioda diz acreditar que a leitura das cartas se dá pelo estudo da teoria e pela prática. “Se fosse [um dom], as cartas não necessariamente teriam função”, afirma. Além de administrar o site Café Tarot e de fazer as análises para o Personare, Chioda também ministra cursos online de iniciação ao tarô. O primeiro passo destacado por ele é a verdadeira disposição para conhecer os símbolos e entender a sua dinâmica. “O tarô é um instrumento cultural do homem… Nunca foi um objeto mágico descoberto nas pirâmides do Egito, mas sim um registro visual de uma época e que tem, desde o século XVIII, evoluído esteticamente”.

Dada a sua popularidade e resistência ao longo dos séculos e culturas, os oráculos são frequentemente procurados, seja presencialmente, seja na internet, sempre que surgem dúvidas sobre o caminho seguido e o caminho a se seguir. “O ser humano consulta oráculos desde muito antes da Grécia Antiga, sempre com o intuito de clarear os passos e ter noção do que lhe aguarda. É um processo natural que merece estudo e, mais que tudo, respeito”, ressalta Chioda.