REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Isabella Molinari e Teresa Lazarini Edição #62

Saúde galopante

Técnica medicinal da época de Hipócrates, a equoterapia passa a ser utilizada no Brasil para o tratamento de pessoas com distúrbios mentais, psicossociais e genéticos

O menino magro de 16 anos não conseguia completar frases. Gestos e palavras soltas eram as únicas alternativas que Isaac da Silva tinha para se comunicar com os outros. Os pais do garoto não conseguiram investir financeiramente em um tratamento reabilitador para o filho, que nasceu com microcefalia. Os efeitos retardadores se instalaram gradualmente no corpo de Isaac, dificultando sua locomoção e comunicação. Até que, no início de 2017, Isaac montou em um cavalo pela primeira vez para testar um tratamento que desafiaria suas limitações.

A psicomotricista Lilian Chateau implementou o volteio interativo, ou seja, a prática da equoterapia em grupo. O tratamento que ocorre semanalmente na Hípica Paulista, no bairro Cidade Monções, na zona sul de São Paulo, segue os mesmos objetivos da terapia reconhecida desde 1997 pelo Conselho Federal de medicina: a reabilitação de movimentos físicos e as propriedades de reintegração social e psicológica com a ajuda de cavalos.

Para encabeçar o projeto, Chateau buscou o apoio do presidente da Hípica Paulista, Romeu Ferreira, que disponibilizou verba suficiente para que o projeto fosse uma iniciativa gratuita para crianças que frequentam a Associação Evangélica Beneficente, instituição de reabilitação para pessoas em condições vulneráveis. Por se tratar de um projeto piloto, um dos pré-requisitos para a seleção dos alunos foi a existência de uma limitação cognitiva que não interferisse no entendimento de comandos simples. Ao final do processo de seleção, cinco meninos foram escolhidos para iniciar o tratamento na hípica.

A psicóloga especializada em tratamento com animais Márcia Gallo se alegra com a transformação que o projeto proporciona aos meninos ao longo desses três meses. Um caso é o de Guilherme Santos de 14 anos, que nasceu com microcefalia e quase desistiu de fazer as aulas de volteio depois do primeiro dia na hípica. O cavalo Zig lhe dava medo e o adolescente nem conseguia tocar no animal. “Ele sempre teve pavor de qualquer bicho, mas agora não tem mais medo; passa a mão no cavalo e brinca com os cachorros”, conta Rosângela da Fonseca, mãe de Guilherme. “Depois das aulas ele ganhou tanta autoconfiança e postura que sobe escadas sem nem pedir minha ajuda”, completa.

Além da evolução motora, o volteio também proporciona e incentiva a sociabilidade por ser uma atividade em grupo. O autismo de Gabriel Sarmento condicionou o menino de 12 anos a ser tímido e a evitar contato social, afetando também sua postura corporal, que antes das aulas era contraída e corcunda. Agora, o menino é quem tem a melhor postura do grupo. Com o peito inflado e as mãos na cintura, Gabriel consegue se manter perfeitamente ereto em cima do cavalo enquanto ele galopa.

A equoterapia vem ganhando tanta demanda que o projeto de lei sobre a implementação do tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, foi aprovada em julho de 2017. Entretanto, ainda não há previsão do início das sessões no SUS. Enquanto políticas efetivas do método não são implementadas na rede pública, iniciativas como a de Lilian Chateau e do Regimento 9 de Julho amparam aqueles que encontram no cavalo uma possibilidade de melhoria em sua qualidade de vida.