REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Mauricio Abbade e Raphaella Salomão Edição #62

Cicatrizes que contam histórias

Histórias de mulheres que lutaram contra o câncer de mama e as alternativas no processo de recuperação

“Minha autoestima sempre foi super baixa, e depois do câncer, embora eu tenha ficado sem peito, cheia de cicatriz e tendo engordado mais de 30 kg no período de tratamento e pós-tratamento, eu me sinto muito mais mulher do que era antes. Não sabia que era forte desse jeito”, conta Tatiana Fadel, professora de redação de 44 anos. Ela foi uma dentre as 1,7 milhão de mulheres diagnosticadas com câncer de mama no Brasil em 2012.

Apesar de ser um dos tipos de câncer mais incidentes nas mulheres, atingindo 25% das pacientes com essa doença, diagnósticos feitos no primeiro estágio da doença garantem em média 88% de sobrevida, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). A advogada Regina Gregório, de 55 anos, descobriu um câncer no início de 2016. “É um tratamento muito longo, cansativo e invasivo. Ficar sem cabelo, com o corpo inchado, não conseguir andar direito e ter dores no corpo é muito limitante. Muda tudo, é muito difícil. Mas depois da cirurgia passei a me sentir melhor. Tem cura”, conta. Exames regulares, observação constante e acompanhamento médico comprovadamente aumentam as chances de vida, afirma Gustavo Zucca, oncologista do Hospital do Câncer de Barretos. “Quanto mais precoce é feito o diagnóstico, menor a chance de a lesão invadir vasos sanguíneos ou linfáticos e enviar células para outras partes do corpo, ou seja, metastizar”.

O tratamento depende do estágio e do tipo do câncer, podendo envolver quimioterapia, radioterapia e processos cirúrgicos. Esses procedimentos médicos têm diversos efeitos colaterais, como queda de cabelo, náuseas, dores, fadiga e a perda da mama em si. E parece ser nessa etapa que cada paciente sente realmente possuir sua própria e única experiência. Protocolo universal, o Ministério da Saúde indica a reconstrução da mama logo após sua retirada, por acreditar que as cicatrizes ou a ausência da mama possa gerar um choque muito grande na mulher operada. Porém, a escolha de colocar uma prótese após a mastectomia, assim como realizar cirurgias plásticas reconstrutivas, cabe somente a mulher sob tratamento. Silvana Bighetto, de 50 anos, que descobriu um câncer em 2010, fez a cirurgia de retirada e ficou por um ano com um expansor, suporte que fica embaixo da pele e é preenchido de quinze em quinze dias para dar o formato do seio. A sua pele, porém, rompeu e inflamou com a prótese, então Silvana escolheu retirá-la, “eu preferi ficar viva do que sofrer com isso”.

Uma alternativa de recuperação de autoestima é a tatuagem de reconstrução de aréolas mamárias. O processo de cobrir a cicatriz com uma tatuagem é praticamente o mesmo de uma tatuagem comum, com algumas ressalvas, como a necessidade de um cuidado maior com agulhas e técnicas específicas e de que a velocidade do aparelho seja menor do que a de um aparelho de tatuagem comum. Miquelangelo do Carmo, que realiza esse trabalho de forma gratuita há dez anos, conta que a técnica da tatuagem em 3D consiste na utilização de sombras e luminosidades diferentes para dar um efeito que o tatuador afirma ser muito semelhante à realidade, entretanto, não é a única forma de criar relevo já que no momento da cirurgia plástica para implementação da prótese de silicone, é comum que mulheres peçam para que o médico faça um pequeno “nó” para simular o mamilo.

A economista Ana Tereza Trevisan, de 67 anos, descobriu um câncer em 1996. Ela é a quinta mulher de sua família a receber o diagnóstico e, após sessões de radioterapia e acompanhamento médico, recuperou-se até que, em 2013, durante uma mamografia, ela descobriu um novo nódulo no mesmo seio. Após seis meses da operação de retirada da mama, realizou uma cirurgia para refazer o mamilo, mas para ela, o seio ficou sem cor, uniforme e sem aréola. “Eu realmente queria ter a minha mama com um aspecto mais normal”, conta.

Trevisan começou a procurar por tatuadores que realizavam o processo de micropigmentação. “A tatuagem me devolveu a autoestima. O resultado é muito realista e eu realmente fiquei feliz com ele”. Além de todo o cuidado, é também necessário um laudo médico que explique qual era o tipo de câncer e por qual tipo de cirurgia essa mulher passou. Bárbara Ink, tatuadora curitibana que realiza esse projeto voluntário há dois anos, conta que esse processo demora em torno de quatro a cinco horas e meia, relativamente mais do que o tempo de duração de uma tatuagem normal. Ink reserva suas segundas-feiras para realizar o trabalho e ressalta que as mulheres se emocionam ao perceberem que estão na etapa final do tratamento. “É uma mistura de choque com surpresa, pois elas não imaginam que vá ficar tão real, e fica” afirma a tatuadora.