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DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Letícia Sé Edição #62

Comunicação é ciência

A academia vai muito além do que a escola nos ensina

É muito estranha a maneira como vemos a ciência. Até não muito tempo – no ensino médio – eu a enxergava como um campo masculino, branco, de físicos, matemáticos e biólogos. Pensando agora, é compreensível: a maneira como a escola trata suas disciplinas curriculares apaga a história e construção das Ciências Humanas. Enquanto nossos ouvidos se acostumam aos nomes dos cientistas de Exatas e de Biológicas ao longo da fase escolar (Pascal, Kelvin, Mendel, entre tantos outros), não construímos o mesmo repertório com as Humanidades.

Ao entrar na faculdade, comecei a entender que o mundo acadêmico era muito mais do que imaginei. E tive que lidar com um autoquestionamento que perguntava se a comunicação, campo em que eu começava a entrar, era realmente uma ciência e como era legitimado. Muitos textos e professores me ajudaram nessa jornada. Mostrando-me que, sim, somos cientistas ainda que nosso objeto não seja exato ou biológico. Parece infantil essa reflexão, mas sinto que é importante debatermos o que é ciência, sendo as nossas impressões iniciais um ponto de partida de grande importância nessa experiência.

Afinal, eu não estava de todo errada. As ciências, mesmo as Humanas, ainda são majoritariamente guiadas por homens brancos. Talvez por causa disso me interessei pelos textos de Stuart Hall, teórico jamaicano dos Estudos Culturais, e Edward Said, palestino que atuou na mesma linha que Hall, logo no primeiro ano da graduação em Jornalismo.

Meu primeiro contato com Estudos Culturais foi no início da graduação, nas aulas de Teoria da Comunicação. Depois, aprofundei minhas leituras na área e participei do Intercom levando um artigo que discutia a representação do árabe no cinema norte-americano. Os povos árabes vêm sendo perseguidos, exterminados, segregados e assistimos a tudo isso com passividade, esvaziando a humanidade dessas pessoas. É aí que mora meu grande interesse pelas questões levantadas pelo orientalismo. A história já nos mostrou que criar um bode expiatório não é uma boa saída para resolvermos nossas crises ocidentais. Mas parecemos esquecer.

Acredito que o papel do cientista social, e, principalmente, dos cientistas da comunicação, é de questionar os discursos que criamos por utilizarmos os meios de comunicação como instrumento de trabalho. Agora, no terceiro ano de faculdade, concluo minha Iniciação Científica, orientada pela Profa. Dra. Ana Luiza Coiro, sobre mulheres árabes em videoclipes. Fiz uma análise de como certos clipes feitos por mulheres subvertem algumas lógicas do universo de gênero do Oriente Médio. Meu objeto foram dois clipes: o primeiro, de uma rapper síria, Mona Haydar, chamado Dog, e outro de um grupo saudita, Majedalesa, com a música Hawages. Em ambos, vemos mulheres cantando pela igualdade de gênero em contextos específicos relacionados a suas origens. Conversei com mulheres árabes habitantes de São Paulo para entender as questões de identidade que essas representações tocam.

E qual a importância de estudar videoclipes? É preciso entender que grande parte do que somos, de nossa identidade, é formada pelas representações que existem de nós – cognitiva e culturalmente. Quando esquecemos que nossa existência humana vai além das questões físicas e biológicas, começamos a questionar se a comunicação é realmente ciência. Penso nisso quando percebo que o videoclipe, assim como outros objetos audiovisuais, é visto com certo desdém no meio acadêmico. Quem somos é formado por complexidades discursivas e a mídia é o meio pelo qual somos (ou não) representados. Se uma grande parte das vidas das pessoas é construída pela comunicação, então por que os acadêmicos da área não seriam legítimos?

A Iniciação Científica foi uma experiência academicamente importante porque me mostrou como as vidas das pessoas são construídas por meio dos artefatos midiáticos. A ciência não está distante da vida factual. A comunicação é uma ciência que se constrói a partir de outras e que se legitima pela importância do comunicador na sociedade.