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DA FACULDADE CÁSPER LIBERO
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Por Fernando Oda Edição #62

Vanguarda mineira

O Clube da Esquina impactou o cenário musical da década de 1960 por meio de arranjos que se propagam até hoje

Milton Nascimento recebeu o título de doutor honoris causa em música no ano de 2016 pela Berklee College of Music, em Boston, nos EUA – uma das mais respeitadas universidades de música do mundo. Ao lado de nomes como B.B. King (Blues) e Miles Davis (Jazz), lia-se no cartaz que anunciava as participações do evento: Milton, o homem que criou um gênero.

Na década de 1960, surgia um movtimento musical em Belo Horizonte chamado Clube da Esquina, que teve como fundadores Milton Nascimento e Márcio Borges. Bituca (apelido de Nascimento) cantava e Borges compunha. Eles passaram a se encontrar para criar música juntos e logo a qualidade dos trabalhos chamou a atenção de outros artistas, que se integraram ao grupo, como Beto Guedes, Fernando Brant, Flávio Venturini, Lô Borges, Tavinho Moura, Tavito, Toninho Horta e Wagner Tiso.

O grupo liderado por Borges e Milton lançou o primeiro álbum, “Clube da Esquina”, em 1972. As letras das faixas conversavam entre si por meio dos temas que representavam, como por exemplo o amor, tanto por uma pessoa como também pela experiência de viver; o interior de Minas Gerais, diversas vezes ilustrado pela figura do trem de ferro que eles viam passar pelos campos, levando gente e sonhos dentro dos vagões; a liberdade, defendida pelo livre arbítrio das ideias e das ações de cada um.

Ivan Vilela, violonista e professor de Música Popular Brasileira na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP),  analisa os aspectos musicais teóricos que marcaram a construção das faixas a partir dos arranjos. “‘Cravo e canela’ marca as influências do congado de Moçambique na pulsação das batidas. Na faixa que encerra o disco, ‘Ao que vai nascer’, a letra é quase recitada e a melodia fica por conta dos vocalises sobre os instrumentos. Também foi colocado um efeito de fade out no últimos segundos da música, ou seja, o volume vai diminuindo aos poucos até desaparecer”. Vilela afirma que esse recurso pode ter sido utilizado para atribuir um sentido de continuidade à obra.

Continuidade essa que se propagou até seis anos depois, quando o álbum “Clube da Esquina 2” foi lançado em 1978.  Assim como no primeiro disco, a percussão é protagonista em diversas faixas, uma vez que ela “ganha vida” e cria sua própria melodia. As harmonias psicodélicas remetem aos Beatles. Muitos membros do Clube da Esquina eram fãs da banda e foram encorajados, assim como os rapazes de Liverpool, a inovar.

E lá se vai mais um dia 

Não demorou muito, apenas dois toques do telefone e Lô Borges atendeu minha ligação exatamente no horario em que nossa conversa estava agendada. Primeiro questionei o artista sobre a importância do relançamento do disco que leva seu nome, lançado no mesmo ano em que nascia o primeiro trabalho do Clube. O disco do tênis, como ficou conhecido popularmente pelo fato da capa reproduzir a imagem de um par surrado de Adidas branco, é composto por 15 faixas inteiramente autorais, que foram moldadas em arranjos experimentais  de sonoridades e ritmos, trazendo novas dimensões para o cenário musical.

Em parceria com a banda de Pablo Castro, o disco foi relançado na plataforma vinil em 2017. “O renascimento se dará não apenas no conteúdo, mas também na forma”, justificou. Com voz calma, mas assertiva, ele acrescentou que o relançamento seria uma tentativa de resgate de uma obra cujas cançōes nunca entraram para as setlists de seus shows. As músicas foram minuciosamente trabalhadas dentro do gênero nas quais se encaixam – Folk, Rock, Balada, Baião. “Cada canção é uma tradução do que eu estava sentindo”.